QUEM BANDA NA FAZENDA POR BAIXO DO PANO É JUCÁ. MEIRELLES CAI ANTES OU DEPOIS DA “META” ?

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O “abafa” da mídia sobre o caso dos milhões recebidos por Henrique Meirelles e mantidos em contas no exterior não será proteção contra o outro ataque que o Ministro da Fazenda sofre, maior e de dentro do próprio Governo.

Todos já sabem que é impossível cumprir a meta fiscal de déficit de R$ 140 bilhões.

Para quem ainda ficou em dúvidas depois do que foi mostrado aqui, com as contas do Tesouro em junho, o gráfico do Poder360 que reproduzo acima esclarece como se tornou virtualmente impossível cumprir o déficit projetado. Como se argumentou ontem, o primeiro semestre é o período mais folgado para as contas públicas e, mesmo desconsiderando os alegados R$ 18 bi de precatórios pagos adiantado, isso não compensa a ausência dos R$ 26 bilhões das repatriações do ano passado.

Não há aumento de imposto ou privatização que, em cinco meses, resolva a diferença entre o déficit presente em 12 meses (R$ 182,8 bilhões) e os R$ 140 bilhões prometidos.

Entra aí a história do “PDV de mentirinha”, como apropriadamente o chamou hoje, no Valor, a colunista Maria Cristina Fernandes, uma das raras que não deixa com que o “pensamento único” antiestado contamine sua análise econômica:

(…) o PDV soa como manobra diversionista. Introduz uma bem-vinda flexibilidade de jornada com redução proporcional de salário, mas ataca o conjunto de rendimentos quando o problema é seu valor. Carreiras com poder de barganha se descolam do conjunto do funcionalismo e arrancam aumentos incompatíveis não apenas com o padrão de países mais ricos mas, principalmente, com o buraco fiscal brasileiro. Não é para esses funcionários que o PDV é vantajoso, uma vez que a adesão levará à perda da aposentadoria integral. O programa só se mostra atraente para funcionários que ganham até R$ 5.531,31. Como este é o teto do Regime Geral da Previdência, o servidor que se desligar e for nele enquadrado, nada perderia e ainda embolsaria o bônus por ano trabalhado oferecido pelo PDV.

É notório que o Plano de Demissão Voluntária foi lançado pelo Ministro do Panejamento, Dyogo Oliveira, à revelia de Henrique Meirelles e, ontem, foi sacramentado – ainda sem regras claras – por Michel Temer.

Só que o Ministro do Planejamento, todos sabem, não é senão o Ministro do Planejamento de direito, pois o de fato sempre foi o senador Romero Jucá, hoje o maior pilar de apoio de Temer.

Meirelles teve de por o rabo entre as pernas e aceitar, sabendo que a “mentirinha” não resolve e pode até agravar, com desembolsos de indenizações, o quadro das contas estatais.

Meirelles está sendo empurrado a chutar os santos do altar. O primeiro já foi, o do aumento de impostos. O segundo, o aumento do déficit público, parece estar próximo. Pode ser que reste ainda o rebaixamento da nota de crédito do Brasil pelas agências de classificação de risco antes da hora fatal.

Temer espera apenas que Meirelles absorva toda a culpa para, galantemente, defenestrá-lo.

Romero Jucá já é o Ministro da Fazenda e Meirelles o mais caro gerente do mundo.

FERNANDO BRITO ” BLOG TIJOLAÇO” ( BRASIL)

O GERENTE DO POSTO IPIRANGA NÃO CONSEGUE ENFRENTAR O PESSOAL DA BANDEIRA 2

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Nesta nossa história brasileira que, em termos de crise, ama ficar se repetindo, o ministro da Fazenda, Henrique Meireles, parece começar a ganhar ares de Joaquim Levy. De forma bem semelhante, Meireles vai esbarrando em problemas parecidos com os de Levy, da mesma forma no momento em que o Congresso baixa pesado a Bandeira 2 no taxímetro com que roda para tentar livrar o presidente Michel Temer da crise.

Para quem não se recorda, Levy chegou ao Ministério da Fazenda como remédio ortodoxo do governo Dilma Rousseff quando não foi mais possível ignorar que a crise econômica batia pesado à porta. Chegou para acalmar mercados e realizar a política econômica recessiva que na campanha Dilma prometera que não faria. Mas a crise não era só econômica. Era também política. E, no conflito entre a forma de solucionar a crise política e a crise econômica, Levy rodou.

Levy começou a dançar quando Dilma colocou seu vice Michel Temer na função de coordenador político e ele puxou o então ministro da Secretaria de Aviação Civil, Eliseu Padilha, para operar os entendimentos com os parlamentares. Padilha tornou-se o “gerente do Posto Ipiranga”. Como na propaganda, era ali no “Posto Ipiranga” que os parlamentares encontrariam a solução para atender a todos os seus desejos.

O problema é que os desejos dos políticos custam caro. E quanto pior vai ficando a situação do presidente, mais caros ficam. Os parlamentares reclamavam que Levy segurava a liberação dos seus desejos, Levy desgastava-se, e acabou caindo. No debate interno, Levy trombava com o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, que acabou por substituí-lo.

Hoje, Meireles é a trava de segurança que empresários e mercado financeiro esperam dentro do governo. Da mesma forma, começa a sofrer questionamentos no momento em que a crise política aperta os calcanhares de Michel Temer e os desejos dos políticos ficam mais caros.

Da mesma forma, tromba com o ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira. Da mesma forma, ideias e projetos vão e voltam ao sabor das reações. Agora, aumento no imposto de combustíveis, programa de demissão voluntária de servidores, etc.

Como essa irritante repetição da crise crônica brasileira nunca retorna exatamente do mesmo jeito, mas com nuances diferentes, os destinos finais de Meireles e de Temer poderão não ser os mesmos de Levy e Dilma.

Meireles é provavelmente hoje mais forte do que era Levy como garantidor de certas políticas que empresários e mercado financeiro esperam. Ambos chegam mesmo a ventilar que é mais fácil Meireles permanecer que Temer.

Por outro lado, Temer é muito mais habilidoso no jogo da pequena política do que era Dilma. Ele mesmo durante anos vendeu facilidade no comando do PMDB para as dificuldades que se criavam. No esforço para sobreviver, paga a conta da Bandeira 2 do taxímetro dos políticos. E a transfere para a sociedade. Ok, fica assim com somente 5% de aprovação, mas vai seguindo.

Outro aspecto que precisa ser considerado é se havia mesmo na época de Dilma uma disposição sincera do Posto Ipiranga para resolver os problemas, num momento em que Temer já olhava de soslaio para o seu guarda-roupa imaginando qual o terno que combinaria mais com a faixa presidencial na foto oficial. Agora, “sob nova direção”, o Posto Ipiranga atende em ritmo intenso.

Nessa queda de braço, pode acabar sobrando para Meireles somente a possibilidade de aprofundar a recessão para a sociedade enquanto se paga a conta pesada exigida pela classe política. Classe política que, para manter o taxímetro na Bandeira 2, tende a sustentar Temer vivo, mas na frigideira. Na crise que não termina, fica difícil o clima para votar as reformas pretendidas. E assim vai-se seguindo…

 

RUDOLFO LAGO ” BLOG OS DIBERGENTES” ( BRASIL)

MICHEL TEMER VIROU ZUMBI

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FOTO DE SËRGIO LIMA

Dificilmente a divulgação da pesquisa CNI/Ibope de hoje, mostrando que nunca antes neste país houve um presidente tão impopular, irá mudar o curso dos acontecimentos na votação da denúncia contra Michel Temer no plenário da Câmara. A decisão pode até ser adiada, mas continua não havendo votos, ou interesse político suficiente para afastá-lo.

Nosso Congresso, capturado pelas mais diversas forças do establishment, continuará sua marcha da insensatez rumo a 2018 desconectado da grande maioria. E é provável que Michel Temer, com seus 5% de aprovação, continue governando o Brasil até 1 de janeiro de 2019.

Mas o que acontece com presidentes em tal estado de decomposição política? Quando não caem, viram zumbis. Os políticos tiram deles tudo o que podem até uma data próxima das eleições – e depois caem fora.

Governos com tal desaprovação não aprovam agendas próprias, nem aglutinam forças políticas para eleger ou influir na eleição de sucessores. Vão a reboque.

E, com sua configuração de zumbis, passam a ser cada vez mais apavorantes para seus aliados. Mesmo quem fica no governo passa a correr deles na hora dos eventos, fotos e imagens.

HELENA CHAGAS “BLOG OS DIVERGENTES”( BRASIL)

A FARSA DA CONTA DA JBS QUE ERA DESTINADA À LULA E DILMA

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Joesley Batista era o único controlador da conta e usou o dinheiro que lá existia para comprar 2 barcos, apartamento em Nova York e pagar a cerimônia de seu casamento, em 2012. Depois, disse à Lava Jato que a conta era para Dilma e Lula

A delação da JBS contra Dilma e Lula acaba de ficar ainda mais frágil, após a colunista Mônica Bergamo publicar, nesta quinta (27), que o dinheiro depositado em uma conta no exterior foi usado para bancar luxos de Joesley Batista.

Joesley era o único controlador da conta atrelada a uma offshore em seu nome e, segundo a colunista, gastou o dinheiro comprando um apartamento em Nova York, 2 barcos e até pagando despesas de sua cerimônia de casamento, em 2012.

O que sobrou foi repatriado em 2012 e Joesley ainda pagou R$ 20 milhões de Imposto de Renda.

Mesmo diante de todos esses fatos que mostram que a conta beneficiou apenas Joesley, o delator da Lava Jato disse à força-tarefa do Ministério Público que a conta foi feita para abastecer o PT nos governos Dilma e Lula.

Agora, “depois da confusão por causa da conta”, Joesley mudou o discurso: afirma que pagava a propina ao PT em dinheiro vivo aqui no Brasil e “descontava contabilmente do que já tinha poupado no exterior”. Bergamo ainda acrescenta: “Os recursos seguiam lá fora.”

A fórmula usada por Joesley para citar Dilma e Lula e valorizar sua delação premiada não é nenhuma novidade na Lava Jato.

Marcelo Odebrecht fez a mesma coisa com a história de que criou um caixa para Lula, onde teria depositado até R$ 40 milhões. Apenas o empresário tinha acesso a esse suposto fundo.

Preso na Lava Jato, Marcelo disse que tirou desse caixa virtual – que a defesa chama de caixa imaginário – cerca de R$ 13 milhões para comprar um imóvel para o Instituto Lula. Mas o ex-presidente não quis ficar com o espaço e Marcelo afirma que vendeu e devolveu os recursos ao caixa.

Quando a delação da JBS caiu como uma bomba na mídia, o GGN, após analisar os anexos disponíveis sobre Dilma e Lula, apontou que as acusações feitas por Joesley eram com base em “ouvi dizer” e envolviam sempre supostos diálogos com terceiros sobre os ex-presidentes.

A redação ainda apontou que contra Michel Temer, a JBS mostrou gravações, imagens, mala de propina sendo entregue a um de seus homens de confiança. Contra Dilma e Lula, só a velha narrativa de que eles sabiam de tudo.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

POR TRÁS DA GUERRA ENTRE A REDE GLOBO E A REDE RECORD

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Historicamente , Globo e Record sempre usaram o jornalismo para desferir ataques entre si. A Globo mexia nos podres de Edir Macedo e, na semana seguinte, a Record tirava os esqueletos dos Marinho do armário. Depois de um período de trégua, a Record voltou a atacar a Rede Globo.

Agora não se trata meramente de uma briga comercial, mas política. De um lado, temos o grupo de comunicação mais poderoso do país trabalhando nos bastidores ao lado de Rodrigo Maia para, mais uma vez, derrubar um presidente que ajudou a colocar no poder. Do outro, temos o conglomerado de comunicação do bilionário bispo Edir Macedo que, afinado com Aécio Neves, ataca a Globo tentando proteger Michel Temer

As empresas e os personagens citados acima foram protagonistas no processo que levou à derrubada da presidenta eleita no ano passado. Sacramentado o golpe, não houve final feliz. Diferente do que se imaginava, a economia não se recuperou, as notícias de corrupção envolvendo o governo aumentaram e a popularidade de Temer não parou de despencar. Toda essa tensão causou um racha no antes coeso bonde do golpe, que ficou dividido entre duas facções.

Em maio, as organizações Globo anunciaram o abandono do barco de Temer ao pedir sua renúncia em editorial. Desgastado pelas revelações do amigo falastrão Joesley, Temer talvez não fosse mais tão fundamental para aprovação das reformas, a grande prioridade do Grupo Globo.

Apenas três dias após a declaração de guerra feita no editorial, Temer mandou seu braço direito Moreira Franco – conhecido por ser discreto publicamente, mas uma salamandra escorregadia nos bastidores – tentar uma trégua com João Roberto Marinho.

Parece jornalismo, mas, para mim, soa como trombetas anunciando a chegada do cavalo de Troia do cavalo de Troia ou, como ficou conhecido popularmente, o golpe dentro do golpe.

O conteúdo completo da conversa não foi revelado, mas o que se sabe é que não houve hasteamento de bandeira branca. Moreira ouviu de Marinho que a Globo “irá continuar a fazer jornalismo”. Parece jornalismo, mas, para mim, soa como trombetas anunciando a chegada do cavalo de Troia do cavalo de Troia ou, como ficou conhecido popularmente, o golpe dentro do golpe.

Fracassado o armistício, o governo passou a “ordenar a execução de eventuais dívidas da emissora com a União, de impostos e de financiamentos no BNDES” , segundo o O Dia – jornal alinhado a Crivella (PRB), aliado de Michel Temer. Um enfrentamento pelo qual a emissora, que nasceu e cresceu com paparicos do Estado, nunca havia passado em nenhum outro governo.

De lá pra cá, a Globo vem aumentando a artilharia para cima do governo, poupando-o apenas quando o assunto é reforma. Isso ficou bastante claro na batalha das perícias e na crescente cobertura negativa que constrangem o presidente que, até pouco tempo, desfilava com tranquilidade pelo tapete vermelho estendido pela empresa. Acabou a lua de mel, começou a guerra.

No último dia 9, um repórter da Folha seguiu Rodrigo Maia, que saiu de uma curtíssima reunião com Temer e foi para local desconhecido em carro descaracterizado. O relato do jornal dá ares mafiosos à reunião:

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Enquanto a reunião de Maia com Temer durou menos de uma hora, o encontro secreto com a Globo durou pelo menos cinco. Parece que havia muito mais assunto para tratar com a emissora do que com o seu presidente. À noite, naquele mesmo dia, Maia reuniu aliados em sua casa para – não é piada! – tomar sopa e comer pizza. Durante o jantar, o presidente da Câmara contou aos convidados que havia conversado com “gente importante” e, segundo a Folha, “vaticinou o fim do atual governo”.

Mas se as relações do governo com a Globo desandaram, as com a Record vão muito bem, obrigado.

Mas se as relações do governo com a Globo desandaram, com a Record elas vão muito bem, obrigado. Isso ficou claro nas conversas nada republicanas grampeadas pela Polícia Federal entre Aécio Neves, Moreira Franco e Douglas Tavolaro – biógrafo de Edir Macedo e vice-presidente de jornalismo do grupo.

O então presidente do PSDB, que já não contava mais com a costumeira blindagem global, aparece nos diálogos como o principal articulador de uma negociação que buscava atender antigas demandas da emissora na obtenção de um patrocínio da Caixa Econômica Federal em troca de uma entrevista com Temer. O negócio havia sido vetado pela área técnica do banco. Nas conversas, Aécio e Moreira garantiram ao biógrafo de Edir Macedo que o problema seria sanado, tudo com o aval de Michel Temer.

Edir Macedo não controla apenas a Igreja Universal e a Record, mas também o PRB, importante partido da base governista, que conta com 23 deputados e um ministro. Criado em 2005, o PRB é governista desde a origem e apoiou os governos Lula e Dilma, que também contaram com a benevolência jornalística da emissora do bispo durante um bom tempo. Apesar disso, o PRB foi o primeiro a abandonar o governo Dilma e a pular na barca do golpe de Temer e Cunha, mostrando a essência governista do partido.

Cenas dos próximos capítulos

Em reportagem exibida no Domingo Espetacular no último domingo, o jornalista Luiz Azenha, ex-Globo e atualmente na Record, apresentou uma série de denúncias contra a empresa dos Marinho: participação em um esquema de sonegação fiscal bilionária, criação de empresas de fachada no exterior e fraude na aquisição dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002.

A maior parte dessas denúncias não é inédita e já havia sido publicada há muito tempo no Viomundo, site de Azenha, que nunca foi processado pela Globo por divulgar as informações que a incriminam. A novidade é o fato da Record decidir publicar as denúncias apenas agora e transmiti-las na televisão em rede nacional.

A reportagem lembra também do potencial explosivo que uma delação de Palocci pode ter contra a Globo. A informação bate com outras que já vinham circulando e que apontavam que o ex-ministro dos governos Lula e Dilma poderia revelar segredos sobre “questões fiscais” do grupo.

Azenha afirma que os advogados de Palocci já revelaram o teor da delação contra a Globo para integrantes do Ministério Público e que integrantes da Lava Jato denunciam estar sendo pressionados para não aceitar a delação de Palocci sobre as falcatruas da empresa dos Marinho. Curiosamente, a revista Época e o jornal Valor Econômico, ambos da Globo, já publicaram matérias colocando dúvidas em torno da delação de Palocci.

Logo no dia seguinte à reportagem da Record, Mônica Bergamo publicou uma nota na Folha que mostra que a Globo não está mesmo para brincadeiras:

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Vamos aguardar os próximos capítulos dessa trama. O enredo é ruim como o de uma novela da Record, porém a atuação dos atores tem o padrão Globo de qualidade. Não há mocinhos, apenas vilões. Quanto mais podres dos dois lados dessa versão tropical de Game of Thrones vierem à tona, melhor para o Brasil.

JOÃO FILHO ” THE INTERCEPT” ( EUA / BRASIL)

 

 

 

A HORA E A VEZ DA CRISE ECONÔMICA DO GOVERNO TEMER

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Peça 1 – a hora do espanto

O agravamento da crise é a peça inicial do jogo, em torno da qual se posicionarão as demais peças.

Até agora, mesmo com 14 milhões de desempregados, a crise não produziu a desorganização econômica das grandes crises dos anos 80 e 90.

Agora, o fantasma da desorganização se aproxima. A máquina do Estado esta parando por todo o país. A partir de setembro não haverá mais recursos para o essencial, o que obrigará o governo a emitir moeda ou títulos.


O chamado “dream team”, a equipe econômica de Temer, aprofundou as loucuras cometidas pela gestão Joaquim Levy em nível inédito, com uma cegueira ideológica da qual só acordarão quando a ponta do iceberg rasgar a crosta do navio.

Têm-se um quadro claro pela frente:

1. A economia está exangue. Não há consumo, não há investimentos.

2. Toda a lógica dos cabeções consiste em definir um horizonte fiscal sólido recorrendo exclusivamente a cortes em despesas – e, agora, a aumento de tributação.

3. Julgam que bastará isso para haver uma queda nas taxas de juros longas e, automaticamente, despertar o espírito animal do empresário.

Não consideram:

Curto Prazo

Médio Prazo

Mercado de consumo

Educação

Capacidade ociosa da indústria

Políticas de inovação

Estabilidade política

Adensamento da cadeia produtiva

Impactos sobre receita fiscal

Basta cortar, cortar, até se obter o equilíbrio fiscal. O investimento virá automaticamente. É inacreditável, mas esta é a lógica central na qual fincam suas formulações.

4. Aí toca a cortar gastos públicos, estipular limites de aumento de gastos. A cada corte, há um aumento proporcional na queda da receita, até o limite da crise fiscal generalizada. Sem alternativa, criam-se novos impostos e os papagaios da mídia dirão que traíram as promessas de campanha.

5. Ao mesmo tempo, em cima de um orçamento extremamente comprimido, o governo Temer promove uma queima de saldo de emendas orçamentárias e reduz os dividendos pagos pelas estatais com o aumento desmedido das verbas publicitárias, sem nenhum impacto sobre a demanda agregada.

Peça 2 – a divisão desproporcional dos sacrifícios

Se a crise econômica se aprofundará, a ilegitimidade dos cortes aumentará a fogueira política.

Toda a divisão do sacrifício joga a conta para as faixas de menor renda.

Os novos impostos

Há dois tributos que poderiam ser acionados no curto prazo.

A CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) tem baixíssimo impacto sobre a inflação. Além disso impactaria a todos proporcionalmente e permitiria o rastreamento do dinheiro de caixa 2.

Outra, a CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) é tiro certo no orçamento das famílias de menor renda, já que, quanto menor a renda, maior o peso de transportes e alimentos no orçamento doméstico. E a CIDE impacta diretamente o transporte de cargas e o de pessoas, o transporte urbano e intermunicipal e, através dele, os alimentos. Mas beneficia as usinas de açúcar e álcool, que tem um ilustre economista defensor da CIDE como acionista.

Além disso, ao pressionar a inflação, a CIDE ajuda a legitimar a manutenção da taxa Selic em níveis proporcionalmente mais elevados, aumentando o ganho real. O modelo de metas inflacionárias tornou o mercado sócio da inflação: quanto mais alta a inflação, maior o ganho real proporcionado pela Selic.

O corte pelas despesas correntes

Criou-se uma mística entre economistas brasileiros, que o mal do Estado brasileiro é o nível das despesas correntes. Deveria se economizar nessa ponta, para gastar mais em investimentos.

Ora, o que são despesas correntes?

Salários do setor público são protegidos por lei. Nos juros, não se mexe.

Os cortes são invariavelmente na ponta, naquilo que volta à população na forma de serviços ou produtos. O governo já reduziu em 10% a compra de vacinas, não há recursos para combustível em ambulâncias, nem remédios nas farmácias do SUS, acabou com programas nas áreas de educação, combate ao trabalho escravo e tantos outros.

O caso recente do Ministério Público Federal é bem elucidativo desse dilema entre vencimentos e despesas correntes.

No último concurso, o MPF foi ocupado por uma enorme quantidade de jovens de boas famílias, emulando os hábitos e princípios dos yuppies de mercado, conceitos como meritocracia e produtividade. São neoliberais de carteirinha, porque é a moda dos bens pensantes, na opinião dos concurseiros.

O MPF tem um orçamento, que cobre os vencimentos dos procuradores e a operação da máquina. Recursos para a operação da máquina são essenciais para a boa prestação de serviços. No entanto, decidiu privilegiar os vencimentos, com reajuste de 16,6% para o próximo ano. O que significa que, no limite, haverá uma redução de 16,6% do total na parte que cabe ao operacional.

A queda de produtividade será exponencial.

Veja uma continha didática:

Suponhamos que para cada 1 procurador haja 1 de recursos (na verdade, o peso dos vencimentos nas despesas gerais é muito maior). Com 16% de aumento, o mesmo procurador custará 1,16; e os recursos alocados para ela cairão para 0,84. Significará uma perda de competitividade da ordem de 38%.

Se fosse empresa privada, quebrava.

Ou seja, entre os vencimentos da corporação e a prestação de serviços ao país, escolheu-se os vencimentos. E justamente do poder que mais contribuiu para a depressão econômica, ao arrebentar com as empresas de engenharia, desarticular a cadeia do pré-sal e alçar o grupo de Temer ao poder.

A fuga do conflito rentismo x produção

A única conta intocada é a dos juros. Houve expressivo aumento da taxa real de juros, já que a inflação caiu bem mais do que a queda da Selic. E aumento expressivo da relação dívida /PIB, pela queda do PIB e das receitas fiscais e aumento da dívida por redução do superávit. Esse é um dos pontos centrais do aprofundamento da recessão e da falta de investimentos.

O maior custo não contingenciado da máquina é a conta de juros. Demitir funcionários públicos demanda um enorme lapso de tempo e um custo inicial maior, na forma de estímulos ao desligamento. Reduzir a conta de juros depende exclusivamente do Banco Central. Justificar a política monetária com o atual nível de recessão e de inflação é deboche.

Com o incêndio lavrando na casa, o mercadismo e seus jornalistas prosseguem no discurso manjado de jogar a disputa para o setor produtivo, empresas e empregados, com as reformas trabalhista e previdenciária do setor privado.

Tratam a todos como imbecis. O crescimento das despesas da Previdência é constante, mas não explica de modo algum o aumento do peso sobre o orçamento. O que explica é a queda da arrecadação fiscal, decorrente da falta de estímulos macroeconômicos.

O fogo de encontro do mercado consiste em jogar o conflito para o âmbito das empresas x trabalhadores. As contas públicas vão melhorar não se a Selic cair, mas se houver reforma da Previdência. O custo das empresas irá reduzir não com crédito barato, menos burocracia, menos tributos, mas com menor custo trabalhista à custa da precarização do trabalho. E reformas relevantes, como a trabalhista e a Previdenciárias, são contaminadas pela radicalização e falta de diálogo que está substituindo um modelo falho por outro que não se sustenta em nenhum pilar conceitual.

Peça 3 – a saída pela política

Mesmo os porta-vozes mais radicais do mercado já se deram conta de que a saída é política. Em vez da esperteza de jogar todos os problemas nas costas de uma suposta nova matriz econômica, começam a diferenciar politicas econômicas, identificando corretamente os maiores erros naquelas em que se aboliu completamente a sensibilidade política.

A saída organizada da crise passará não apenas por eleições diretas (e honestas) em 2018, mas por uma busca de consensos, que terá que começar rapidamente, entre setor produtivo, sindicatos, novas e velhas organizações sociais e liberais de boa cepa.

Não há saída fora de um acordo amplo, suprapartidário, que reponha instrumentos básicos de política econômica.

Haverá a necessidade de um choque de gastos públicos, técnico, o mais isonômico possível, que convença o meio empresarial que após o primeiro impacto no aumento da dívida, haverá uma recomposição gradativa do nível de atividades e, consequentemente, das receitas fiscais.
Mas quem colocará o guizo no pescoço do gato de uma opinião pública massacrada por uma cobertura financeira rasteira, incapaz de entender fundamentos mínimos da economia real? É aí que entra a boa política.

Os desastres da pós-redemocratização trouxeram algumas lições que não podem ser esquecidas:

1. O modelo de metas inflacionárias inviabiliza a economia. Não existe ciência capaz de justificar o custo dos juros ao longo dessas décadas. A busca de taxas civilizadas tornou-se ponto central de qualquer política.

2. Há experiências bem-sucedidas de política industrial, como os PDPs (Programas de Desenvolvimento Produtivo) do Ministério da Saúde e as políticas de conteúdo nacional do pré-sal. E desastres rotundos, como o descontrole da política de subsídios no período Guido Mantega.

3. Antes da Lava Jato, da queda das cotações de petróleo e da compressão das tarifas de derivados pela presidente Dilma Rousseff, o modelo do pré-sal revelou-se eficaz para atrair para o Brasil laboratórios de pesquisa de várias multinacionais. Há que se reavaliar essas políticas, montando formas de acompanhamento que impeçam o uso abusivo do poder individual.

4. Mais criativo dos governos neoliberais pós-redemocratização, Fernando Collor instituiu modelos de câmaras setoriais que ajudaram a criar espaços de negociação e de solidariedade entre sindicatos de trabalhadores e empresas. No período Lula, foram criadas diversas câmaras setoriais no âmbito da ABDI (Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial), além do Conselhão. Em um novo governo, essas instâncias têm que ser restauradas como espaço de negociação e de formulação de políticas.

5. Tem que se devolver aos movimentos sociais os espaços conquistados especialmente no governo Lula. Sua institucionalização é pré-condição para o amadurecimento político do país. Segregá-los significaria jogá-los novamente na clandestinidade.

6. Tem que se trazer o Judiciário e o Ministério Público de volta ao leito institucional, acabando de uma vez por todas com sua capacidade de desestabilizar o país. Sem prejuízo de seu trabalho anticorrupção.

Peça 4 – o conciliador ou o bonapartista

A questão é: quem colocará o guizo no gato, desarmará os espíritos para o penoso trabalho de reconstrução nacional?

Qualquer análise tem que levar em conta o papel de Lula.

Há duas possibilidades para Lula. A primeira, a revogação das sentenças absurdas de Sérgio Moro, mas mantendo um mínimo de condenação para inabilitá-lo politicamente. A segunda, Lula candidato a presidente.

A política de conciliação de Lula abriu espaço para o golpe. Os grupos mais à esquerda têm razão em deblaterar contra pactos que permitiram o crescimento das forças golpistas.

Por isso mesmo, há um conjunto de desafios que não poderão ser ignorados por Lula, especialmente o domínio de formas democráticas de trabalhar os poderes de Estado.

Por outro lado, não se espere um Lula guerreiro. Mesmo submetido a humilhações diárias por figuras como Sérgio Moro e procuradores, mesmo com a morte de sua esposa, tão humilhada que quase foi alvo de uma condução coercitiva, não se espere um Lula raivoso. Não faz parte da sua estrutura pessoal e política.

A grande incógnita é qual o Lula que emergirá nas próximas disputas políticas.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

COMEÇA O SEGUNDO TEMPO DO JOGO ENTRE O MERCADO E TEMER

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Apesar dos 94% de rejeição e da mala com R$ 500 mil recebida pelo emissário Rocha Loures , Temer vai escapar da denúncia de corrupção mas pode ser derrubado pelos custos do salvamento.

Há sinais de que começa uma nova fase no jogo. A grita contra sua gastança e o consequente caos fiscal, e o derretimento de Meirelles como seu fiador junto às elites começam a tomar o lugar da reprovação moral. Se não cai por corrupção, Temer pode ser derrubado pela inviabilidade econômica de seu governo.

Esta estratégia política da parte da elite que deseja se livrar dele foi claramente traduzida editorialmente nesta quarta-feira pelo noticiário das Organizações Globo. Este é o tom em todos os veículos do grupo.

No jornal O Globo, sob a manchete do dia, “Contas que não fecham”, seus colunistas disparam contra a desordem econômico-financeira. Gaspari anuncia a fervura de Meirelles na água em que Temer ceva os votos para salvar o pescoço, Miriam Leitão proclama o risco de “apagão fiscal” e Lydia Medeiros informa que a unidade em torno de Meirelles ruiu após o aumento de impostos e que ele resiste à pressão para afrouxar a meta fiscal.

A elite econômica que apoiou o golpe, desiludida com Temer, esperava que o Congresso assumisse a tarefa de removê-lo após a ajuda providencial de Joesley Batista. Menos o setor financeiro, que enche as burras com os juros altos (e nem vai se abalar com a esperada redução de um ponto na Selic, pois agora a inflação voltará a subir com o aumento da gasolina e o Copom pisará no freio).

A mídia grande dividiu-se, com o grupo Globo liderando a artilharia anti-Temer e os jornalões paulistas se equilibrando entre o apoio e a omissão. Com a Câmara dominada, o empresariado produtivo começou a se movimentar.

Ontem publicamos aqui as duras criticas do vice-presidente da Abimaq à política econômica. Paulo Skaf, presidente da Fiesp, janta com Temer mas põe seu pato novamente na rua. E para completar, hoje estourou a denúncia do site Buzzfeed, de que Meirelles guarda no exterior os milhões que recebeu com sua consultoria, que teve como maior cliente a JBS.

O colapso fiscal é uma realidade, não é retórica dos que desejam trocar Temer por um preposto menos vulnerável, com melhores condições para tocar a agenda de contrarreformas. Mas agora, começou a ser usado como munição.

Na semana passada o governo contingenciou R$ 5,9 bilhões do Orçamento mas só em emendas parlamentares já se foram R$ 4,1 bilhões. A base de Temer deformou o Refis para atender a interesses próprios sem levar qualquer advertência, frustrando a arrecadação. Não votou a reoneração da folha de pagamento das empresas e as receitas com repatriamento externo têm sido decepcionantes.

Enquanto isso, Temer e a área política continuam prometendo até lotes na lua para garantir um voto contra a denúncia de Janot. Ontem Temer prometeu R$ 13 milhoes para as escolas de samba do Rio e com isso o deputado Pedro Paulo (PMDB-RJ) agora é voto certo a seu favor.

O rombo é grande, serviços públicos (como recentemente a emissão de passaportes) podem parar mas as medidas propostas são inócuas. O PDV para funcionários públicos em pleno desemprego será um fiasco. Buscar dinheiro indevidamente pago a pessoas mortas é uma garimpagem frívola. Agora já se fala em suspensão dos aumentos a funcionários concedidos no ano passado por Temer em busca de boa vontade da máquina administrativa.

O jeito é pedalar e Temer tem pedalado bem. Para permitir a volta da emissão de passaportes e rolar a dívida, na semana passada ele baixou dois créditos suplementares, um de R$ 100 milhões, outro de R$ 3 bilhões. E o fez sem aprovação parlamentar, o que valeu a Dilma a deposição por “pedaladas fiscais”. Mas depois do golpe o Congresso mudou a lei e agora pedalar não é mais crime.

A ironia da história está em que, para enterrar a denúncia de corrupção e permanecer no cargo, Temer acabou comprometendo um de seus poucos “ativos” valorizados pela elite, a presença de Meirelles na Fazenda. Sem a gastança para enterrar a denúncia, talvez ele tivesse evitado o aumento de imposto.

E como isso não bastou para tapar o rombo, agora Meirelles enfrenta a pressão da área política para afrouxar a meta fiscal já deficitária em R$ 139 bilhões. Ele prometeu um crescimento de 1,6% este ano e o FMI já prevê 0,3%. O confronto com a área política vai se intensificar e em algum momento ele vai pedir o boné.

Além do “gasto político” de Temer, há outros atores contribuindo para o colapso fiscal, como o Ministério Público, quando se concede aumento de 16%, ou como o juiz que suspende a cobrança do aumento do Pis-Cofins, impondo perdas de R$ 76 milhões diários aos cofres do governo. Mas quando a desordem impera, é assim mesmo. Cada um por si, em tempo de murici, e dane-se o resto.

Se a mala de dinheiro de Loures não mexeu com o brio das excelências, há pouco o que esperar das novas denúncias de Janot, disse o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, segundo o site Poder360.

Nada mais grave do que isso deve aparecer, apesar das delações que estão na bica. Mirando 2018, DEM e PSDB, no encontro entre Maia e Geraldo Alckmin, outros demistas e tucanos, acertaram o enterro da denúncia e a permanência de Temer, eleitoralmente mais conveniente a eles.

As ruas estão vazias e os indignados já não batem mais panelas. Assim, caso uma parte da elite nacional queira mesmo se livrar do presidente que vem ampliando a recessão e promovendo o colapso fiscal, vai ter que lutar com outras armas. Por ora, com a exposição da inviabilidade econômica do governo. Está claramente começando outra fase do jogo.

TEREZA CRUVINEL ” BLOG 247″ ( BRASIL)