“A IMPRENSA CRIOU O DEPARTAMENTO DE PROPINAS, OS REPASSES ERAM PARA TODOS”, DIZ O PATRIARCA DA ODEBRECHT

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O patriarca do Grupo Odebrecht, Emílio, desmentiu a existência de um “Departamento de Operações Estruturadas”, que seria responsável pelo repasse de propinas, afirmou que não apenas o ex-ministro Antonio Palocci recebeu recursos para campanhas eleitorais, como todos os partidos, e teve que explicar ao Ministério Público Federal (MPF) a normalidade de empresas privadas dialogarem com o governo sobre políticas públicas e interesses, tanto da empresa, quanto da sociedade.

O depoimento de Emílio ao juiz da Vara Federal de Curitiba, Sérgio Moro, ocorreu no processo que acusa o ex-ministro Antonio Palocci naquela instância e que esta semana teve mais um episódio, de fase final dos depoimentos dos próprios réus. Conforme o GGN divulgou, o processo contra o ex-ministro da Fazenda do governo Lula é peça “chave” para a Operação Lava Jato fazer a ponte para condenar o ex-presidente.

Leia mais: Vazamentos concluem que Palocci foi usado para prender Lula

Nesse sentido, o levantamento do sigilo do patriarca do Grupo, feito hoje juntamente com os demais depoimentos da Odebrecht na Lava Jato, é determinante para se verificar o recorte feito pelos procuradores da República e pelo próprio juiz Sérgio Moro, interessados em captar depoimentos de indícios especificamente contra o governo e contra o partido, PT, ainda que a testemunha amplie o leque de acusações.

Em determinado momento da sessão, já ao final, Emílio enfatiza o que vinha tentando esclarecer desde o início da audiência: “Existia uma regra: ou não contribuía para ninguém, ou contribuía para todos”.

 

Em um primeiro momento, após os advogados questionarem o ex-presidente da Companhia sobre o caso específico, a procuradora da República presente iniciou um diálogo de tentativa de criminalização da atividade legal de lobby entre empresas e governos. A seguir, o GGN reproduz as perguntas e respostas:

MPF: Sobre o relacionamento do seu filho, Marcelo Odebrecht, com o senhor Antonio Palocci, o senhor tem conhecimento?
Emílio: Eu sei que se conheciam, conversavam, tinham um diálogo, talvez até com mais frequência do que comigo mesmo.

MPF: E o senhor sabe se nessas conversas o senhor Marcelo Odebrecht também levava pleitos da empresa, discutia interesses da empresa com o sr. Antonio Palocci?
Emílio: Saber eu não posso afirmar, mas eu deduzo que sim. Eu sempre orientei a todos executivos na Organização a nunca levaram apenas aquilo que eram os problemas da Organização, e sim aquilo que eram soluções para os problemas do país. Essa sempre foi uma preocupação.

MPF: (Interrompe) O que que o senhor chama de soluções para os problemas do país?)
Emílio: (Seguiu) … Era enfase na agenda de todos os executivos, inclusive as do Marcelo.

MPF: Eu não entendi quando o senhor fala que os executivos tinham que levar soluções dos problemas do país para as autoridades, o que o senhor quer dizer com isso?
Emílio: Todo país tem seus problemas e muitos cidadãos e empresas têm o dever de dar suas contribuições de como solucionar suas carências, suas dificuldades. Sem dúvida nenhuma. O processo educacional, como resolver este problema no país? Sempre foi uma preocupação.
Nós fomos o responsável por contribuir com o Congresso, inclusive, em várias políticas públicas. Por exemplo, a lei de concessão, nós éramos uma das empresas que trabalhou no exterior, nos Estados Unidos. Era a que mais tinha informações capazes de trazer contribuições nesse sentido.

MPF: (Interrompe) E o senhor opinava na Lei de Concessões? E nesses casos o senhor opinava, os seus executivos eram orientados a levar essas orientações para o sr. Antonio Palocci?
Emílio: Os executivos não eram orientados a levar para ninguém. Eles eram orientados em construir suas agendas de diálogo com as autoridades, levando contribuições daquilo que é importante para o país. E não levar egoisticamente apenas os seus interesses.

MPF: E nesse momento, eram também apresentada a empresa Odebrecht para solucionar estes problemas do país?
Emílio: Eu não saberia dizer, sinceramente, eu sei que eles dialogavam. Agora, o que eles dialogavam, os executivos da Organização com as autoridades brasileiras, eu lhe confesso que o teor dessas agendas eu não conhecia. Agora, eu tenho certeza que eles levavam contribuições para as carências dos problemas brasileiros. Isso eu tenho certeza.

MPF: E quando havia alguma questão de interesse da empresa, isso também era levado?
Emílio: Claro! Acho que seria algo irreal um empresário ter um encontro com uma autoridade que ele não leve seus problemas também como empresários, sem dúvida nenhuma.

Assista à íntegra do depoimento de Emílio Odebrecht

Em seguida, após verificar que a testemunha não apresentava nenhum indício contra especificamente o ex-ministro Palocci, foi a vez de Sérgio Moro de tentar, em primeiro momento, invalidar o depoimento para o caso específico.

“O senhor então se afastou do cotidiano da empresa, da administração, da parte executiva da empresa a partir de quando?”, questionou. “2001 ou 2002”, respondeu Emílio. “Então o senhor me corrige se eu estiver errado: o senhor não tem conhecimento se o sr. Palocci recebeu ou o Partido dos Trabalhadores recebeu a partir de pedidos do sr. Palocci pagamentos desde p Departamento de Operações Estruturadas”, tentou quitar Moro a viabilidade da testemunha.

“Eu não tenho dúvida que teve contribuições da Organização. E não tenho dúvida que pode ter sido também ele [Palocci] um dos que receberam esses recursos para o partido. Agora, os detalhes disso, dr. Moro, eu realmente não saberia dizer ao senhor”, levantou o patriarca do Grupo.

Interessado, o juiz da Lava Jato questionou por que Emílio disse “não ter dúvidas”. “Porque a gente contribuía. Existia uma regra: ou não contribuía para ninguém, ou contribuía para todos”, respondeu.

Na insistência de mirar a criminalidade ao caso de Palocci, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o magistrado do Paraná tentou especificar: “Mas as contribuições que estou indagando, não são geral, mas pagamentos desse Departamento de Operações Estruturadas. Então minha pergunta é específica em relação a esse ponto. Pagamentos feitos pelo Departamento de Operações Estruturadas: o senhor tem conhecimento ou não?”.

Esperando uma resposta negativa, Emílio novamente surpreendeu: “O senhor me permite, porque me pediu que falasse a verdade, não existe na Organização um departamento. Não existiu de forma formalizada, existiu um responsável por operacionalizar recursos não contabilizados. Foi dado essa nomenclatura não sei nem como. Isso a imprensa vem repetindo, repetindo, repetindo. Está se tornando como se fosse uma verdade, que não é”, esclareceu.

“Agora, esses pagamentos não contabilizados, sem dúvida nenhuma, existiam. Eu sabia que existiam. Não só ele [Palocci]. Existia para alguns políticos uma mescla, entre um e outro [pagamentos contabilizados e não]”, disse, completando: “com certeza [executivos da Odebrecht] me trouxeram em vários momentos [a informação de] que todos os partidos tiveram [esses recursos]”.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

 

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