NO TEMPO DA DITADURA, A MÍDIA TAMBÉM PROTEGIA OS PODEROSOS

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Nesse clima dúbio que prevalece no Brasil, em que a política é tratada como caso de polícia, em que os políticos são delatados a três por dois, muita gente pode ser levada a chegar a conclusões simplistas e equivocadas como essa: se a corrupção é fruto de campanhas políticas vamos acabar com as eleições e com os políticos; não tem eleição, não tem político – não tem corrupção.

Logo, voltemos à ditadura militar.

Por isso vem bem a calhar a historinha que o grande jornalista Elio Gaspari conta hoje na Folha a respeito do caso “Marisa Tupinambá” que atormentava nossas cabeças e desafiava a nossa imaginação no início dos anos 80.

Nunca sabíamos, então, o que era informação, o que era boato. Dentre muitos outros, corriam relatos vários a respeito de algum figurão que tinha sido esfaqueado em plena avenida São Luís por uma socialite (ou prostituta) chamada Marisa Tupinambá.

Uma mulher fatal. Ou travesti.

A história corria a boca pequena nas cantinas frequentadas por artistas e jornalistas nas altas madrugadas. E nas redações da imprensa independente, então chamada alternativa ou nanica.

Os nomes das vítimas variavam: ora era Jô Soares, ora Delfim Netto, ora Roberto Campos. A versão mais difundida, talvez por ser mais chocante, era Jô Soares com um travesti.

E o detalhe: facada nas costas.

Agora Gaspari finalmente revela: aconteceu com Roberto Campos. E não na avenida São Luís, mas muito longe dali, num apart-hotel da luxuosa Vila Nova Conceição, onde o ex-todo poderoso ministro da Economia da ditadura militar foi esfaqueado no abdômen e no tórax e não nas costas no momento em que ele e Marisa Tupinambá negociavam o fim do relacionamento, no dia 28 de abril de 1981.

Eram amantes desde 1969, ela tinha 23, ele 52. Em 1975. Embaixador em Londres conseguiu para ela um posto na embaixada de Paris. Ela foi demitida (xeretou papéis que não devia).

Voou para Londres. O embaixador arrumou para ela um apartamento “que também usava para fazer suas festinhas”, diz Gaspari. Cada um imagina o que quiser o que eram as “festinhas”.

A parte que interessa da história é que Gaspari informa – e com conhecimento de causa já que herdou os arquivos de Golbery do Couto e Silva – que a moça em questão ganhava bolsa de 700 libras mensais paga pela Odebrecht Overseas enquanto esteve em Londres.

Qual era a contrapartida? Isso nem o Gaspari conta, certamente porque não sabe. Mas que havia, havia.

Ou seja, a corrupção no Brasil existe com ou sem eleições.

Na ditadura e na democracia.

A Odebrecht trabalha à base da corrupção há mais de 30 anos, há mais de 40. Na ditadura e na democracia.

Amantes de figuras públicas ilustres foram e são sustentadas por empreiteiras, seja na ditadura, com Roberto Campos, seja na democracia, com Renan Calheiros.

A diferença é que na ditadura a gente ficava sem saber nada e agora fica sabendo.

Ditadura não acaba com a corrupção. Acaba com a informação.

ALEX SOLNIK ” BLOG 247″ ( BRASIL)

 

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