O MUNDO SECRETO DOS PODEROSOS DE PORTUGAL NA VISÃO DE SUAS SECRETÁRIAS

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ILUSTRAÇÃO GONÇALO VIANA

Belmiro queria disponibilidade e ação, Eduardo Catroga confiança e flexibilidade. Sá Carneiro era metódico, Vítor Bento é rigoroso. Marcelo não se preocupa com o sigilo. Dias Loureiro não é de elogios. O retrato dos homens de topo feito pelas suas secretárias

agenda delas não existe ou, por outra, é o espelho da agenda deles, aqueles para quem trabalham a tempo inteiro. Não há horários e a dedicação é uma arma fundamental. São secretárias administrativas, mulheres que assessoram figuras de topo, gestores, políticos, economistas.

Com direito a sigilo profissional, as tarefas que desempenham não se esgotam. Com o treino e a experiência que lhes permitem fazer (quase) tudo o que os seus chefes precisam e lhes pedem, guardam segredos vida fora que não revelam nunca, mas abrem o baú das memórias para desvendar personalidades e exigências. Vidas cheias, histórias intensas.

Dores Cunha trabalhava há poucos meses na empresa Orbitur, quando lhe disseram que ia ficar num secretariado, no qual além de trabalhar para as empresas do grupo, tinha de estar pronta para dar apoio a Belmiro de Azevedo. “Lembro-me de que na altura a única pessoa que me preparou para o que aí vinha foi o senhor Pereira da Silva (também sócio da Orbitur), que me chamou ao gabinete dele e me disse: ‘Minha filha, vais ter uma oportunidade única, vais trabalhar com uma pessoa que eu diria que é muito parecida com o engenheiro Duarte Pacheco, com quem trabalhei. Vais ver que vai ser muito gratificante e muito bom.’”

Estávamos no início dos anos 80 e Dores, com 25 anos, deixou-se por lá ficar uma década. Antes tinha trabalhado como datilógrafa na Regisconta, o seu primeiro emprego aos 16 anos, logo a seguir à conclusão do Curso Geral do Comércio, em 1971. Tinha passado pela ELF portuguesa, uma subsidiária da firma francesa e pela empresa que fazia os telefones para os CTT. No tempo da revolução foi telefonista no Hotel Embaixador e ainda recorda os encontros entre o general Spínola e o general Costa Gomes.

Sem saber “sinceramente” ao que ia, entrou com o pé direito naquilo que foi a construção do grupo Sonae. “O modo de gerir era uma revolução completa para o mundo da gestão em Portugal. Um grande dinamismo, muito trabalho, sem horas e com as infraestruturas nacionais a responder a outro ritmo, não à velocidade que o engenheiro Belmiro queria!” Nessa época, o homem-forte da Sonae vinha a Lisboa duas vezes por semana. Acompanhado por grupos de gestores, marcava com Dores Cunha as suas reuniões, atendia

e pedia telefonemas, recebia pessoas, jornalistas incluídos. Tudo tinha de ser assegurado pelo secretariado, da logística aos contactos e à assistência às reuniões, bem como, no caso de Dores, ao registo de pessoas coletivas. “Praticamente todas as empresas da Sonae foram registadas por mim”, conta.

Da lista de requisitos exigidos por Belmiro, além de uma grande relação de confiança, estavam a capacidade de trabalho e a disponibilidade total. A eficácia no domínio da comunicação era ainda ponto de honra. “Não era comum naquela altura pedir uma reunião para o próprio dia ou para o dia a seguir, e fazê-lo com pessoas de topo era ainda mais difícil, por isso tinha de haver uma certa habilidade para marcar as reuniões a tempo e horas”, lembra Dores Cunha, hoje a trabalhar com a presidente da SIBS, Madalena Tomé, depois de uma vida ao lado de Vítor Bento. A secretária ainda recorda a dificuldade que havia para que Belmiro de Azevedo cumprisse os horários de todos os encontros e reuniões devido aos atrasos das deslocações de avião, o meio de transporte que mais utilizava à época.

“A nível pessoal, tive a melhor das experiências com o engenheiro Belmiro de Azevedo e sei que as pessoas ficam muitas vezes admiradas. É evidente que ele é uma pessoa que se impõe naturalmente, de início acho que ficava em sentido mas depois fui-me habituando e o trabalho correu muito bem. Estou muito agradecida por ter participado naquela aventura que foi a criação do grupo Sonae como hoje o conhecemos. Convivi com grande parte dos gestores que hoje estão aí à frente de grandes empresas. No fundo, a Sonae foi um viveiro de gestores.”

A relação de amizade ficou, aliás Dores saiu do grupo por uma “razão mesquinha”, como diz, apaixonou-se por um diretor de uma das empresas, com quem se veio a casar pela segunda vez, e achou que não era saudável trabalhar no mesmo ambiente que o marido. Quando Belmiro anunciou publicamente que ia deixar o ativo, escreveu-lhe a desejar felicidades e a agradecer-lhe a experiência que tinha tido e que tinha feito dela a profissional que é hoje. “Ele respondeu-me com umas palavras muito bonitas”.

Com o 7º ano antigo incompleto, Céu Sobral entrou para o Secretariado do PPD depois de ter recusado o vínculo à função pública, “uma miragem”. Trabalhou em três gabinetes ministeriais mas não gostou. “Somos umas telefonistas de luxo, não fazemos mais nada! Aí, a única pessoa que trabalha mesmo é a secretária do chefe de gabinete, que é por quem passa a papelada toda”, conta.

Secretária de Mota Pinto, quando ele era vice-primeiro-ministro e ministro da Defesa, Céu lembra-se de “ter pedido ao apoio uma máquina de escrever para me distrair e o chefe de gabinete chegou e tirou-ma. Só fazia mesmo chamadas”.

O caso mudou muito de figura quando secretariou Marcelo Rebelo de Sousa, era este presidente do PSD, e foi sua datilógrafa durante dez anos. Passava do manuscrito à máquina pareceres e colunas dele para os jornais. “Sigilo não é uma palavra que vá muito com ele. É um patrão muito simpático e divertido, apesar de achar mais graça a ele próprio do que ao que os outros dizem.

É uma pessoa que admiramos imenso pela enorme capacidade que tem para fazer seja o que for. Telefonava-lhe e dizia-lhe que era preciso fazer isto ou aquilo e ele respondia imediatamente: ‘Então escreva”. E ditava tudo de cabeça. Depois sabia a agenda de cor e não acredito que tenha mudado. Brincava comigo. Estava com ele ao telefone a olhar para a agenda e ele do outro lado sem a agenda sabia mais do que eu.”

Céu conta que quando morreu o general Spínola ligou a Marcelo para o Algarve e ele tinha o atendedor de chamadas ligado. Deixou-lhe recado a dizer que os jornais queriam um depoimento dele. “No dia a seguir abri os jornais com curiosidade e reparei que o depoimento do professor Marcelo era o maior e o melhor. Disse-me ele: ‘Recebi a sua mensagem às sete e meia da tarde e fiz aquilo num quarto de hora’. A secretária acrescenta que Marcelo é verdadeiramente espantoso.

“É um treino que ele tem, uma metodologia a toda a prova. É brilhante e tem realmente o afeto de toda a gente.” Já o Miguel Relvas “parece que não faz nada mas superintende tudo e distribui trabalho, confia nas pessoas”, continua Céu Sobral, mais de 40 anos de serviço e sempre no PSD. “Foi ele quem me ensinou a fazer o chek-in eletrónico, era todo ‘prà frentex’.”

Foi secretária de Dias Loureiro durante dez anos. Esteve com ele tanto no partido como no Governo. E lamenta: “Ele nunca cultivou a imagem e por isso tem uma muito injusta”. Dias Loureiro, é, diz Céu, de todos eles o que faz mais equipa. “Não é de elogios, fez-me dois elogios na minha vida inteira, mas é exigente e quando é preciso chamar a atenção chama e acho que um chefe tem de ser assim. Com ele sabia sempre com o que contava.”

A secretária escrevia-lhe discursos e fazia as cartas que fossem precisas. “Com o professor Marcelo fazíamos o discurso para o sim e depois para o não. Antes dos congressos escrevíamos o de abertura e o de encerramento, nem que depois ele burilasse aquilo tudo um bocado”, relata.

“Quando fui secretária do doutor Mota Pinto, ele estava numa audiência com o Presidente da República e telefonaram-me a dizer que o pai tinha tido um AVC ou qualquer coisa do género. Telefonei para a presidência e avisei as secretárias para lhe dizerem que me ligasse assim que a audiência acabasse. ‘Ah! Eu vi logo que era qualquer coisa de sério e urgente porque a minha secretária não me ia telefonar para Belém por dá cá aquela palha’, respondeu-me.

Céu tem como filosofia “não os incomodar desnecessariamente e nada de os isolar”. “Há secretárias que exageram, ligam por tudo e por nada. A proteção ao chefe é uma coisa que me põe doente, isso cansa-os até a eles. Temos de ter noção da medida, ser sensatas.”

Profissão de desgaste rápido ou com prazo de validade, como dizem Dores Cunha e Céu Sobral, a secretária vive a angústia de sair do trabalho a saber que pode acontecer qualquer coisa importante e ela não está lá. Algo natural para todas visto gostarem imenso do que fazem.

A lealdade também as move. “Quando o professor Marcelo saiu fez a fotobiografia do pai e eu e a Cristina, que também tinha sido secretária dele, é que passávamos à máquina em casa. Saiu uma notícia a dizer isso mesmo. E o José Luís Arnaut veio mostrar-ma a dizer que não sabia qual iria ser a reação de Durão Barroso. Não tem de dizer nada, respondi-lhe, fazemos isso à noite em casa e vocês nos nossos afetos não mandam, mas também não podem pensar que somos mais leais ou menos leais conforme os nossos afetos.”

Sara Netto, há cinco anos secretária de Eduardo Catroga, à frente da presidência do Conselho Geral de Supervisão da EDP, tem a mesma relação de afeto, de confiança e de cumplicidade. “Vamos gradualmente conhecendo a pessoa. Quando cheguei não conhecia o senhor, só a parte da figura pública que ele é. Depressa descobri que é uma pessoa extremamente fácil de lidar e muito humana, muito compreensível e muito flexível também.

Um chefe assim também ajuda a que nos sintamos mais integrados.” A criação da empatia e dos laços de afinidade começou logo nos primeiros tempos de trabalho conjunto. “O meu lema é a dedicação e o empenho, dar o litro. Tenho grande admiração pelo professor não só por quem foi no passado e pelo que é aqui na EDP, mas também pelo ser humano que é.”

A interatividade entre a secretária e Eduardo Catroga é grande e a melhor forma de fazer com que tudo corra bem. Daí que Sara prefira dizer que é um braço-direito do chefe e não uma figura-sombra. “Implica mais ação e mais confiança”, concretiza. “A primeira coisa que faço é ver a agenda para perceber o que vai acontecer até ao fim do dia. Vejo que tipo de tarefas tenho de fazer logo de manhã. Se existem reuniões para marcar, se existem documentos para preparar para as reuniões, se tenho que receber alguém e encaminhá-la para alguma reunião”, conta Sara Netto.

Para ela as tarefas mais difíceis são as de que mais gosto. Os desafios, como lhes chama. “O fácil é entediante. Gosto de coisas que puxem por mim e me façam crescer.” As grandes reuniões do conselho são o seu fruto mais apetecido. “Vêm todos os acionistas e tenho a meu cargo a preparação toda da reunião, contactar os acionistas, organizar toda a logística, os hotéis, os motoristas. É preciso começar a organizar tudo com um mês de antecedência para que não haja falhas.” É um trabalho de muita responsabilidade e todas elas sentem esse peso.

“O não é uma palavra proibida. O não sei não existe. Vou ver, já lhe digo, dê-me uns minutos, isso sim. E se não sabemos vamos ter de encontrar alguém que saiba, nem que seja por portas travessas”, explica a secretária de Catroga. O ex-ministro das Finanças, diz Sara, “é uma pessoa exigente, muito disciplinada e que gosta das coisas bem feitas. É uma pessoa com a qual consigo falar sobre tudo. Se tenho um problema posso contar com ele para tudo. Até hoje não tenho nada a apontar. E sinto que é recíproco, que ele comigo tem esse à vontade e essa cumplicidade.

Um dia estava marcado um almoço na sede da EDP e quando faltava meia hora para começar Sara recebeu uma chamada da secretária do convidado que vinha a negócios a dizer que tinha surgido um imprevisto e que era impossível este comparecer. “Tinha aqui a empresa de catering, tinha o almoço prestes a ser servido e tivemos de arranjar um plano B. Um plano B que mostra bem a flexibilidade do professor Catroga e a sua capacidade de adaptação. Em vez de almoçar com a pessoa combinada, convidou o staff para almoçar com ele…”

Para Dores Cunha, “o sítio onde o coração mais intervinha no trabalho” era na assessoria a Arnaldo Lopes no Instituto Nacional de Estatística e que durou quase 11 anos. O falecimento do à data vice-presidente do INE, em 2001, deixou-lhe a difícil tarefa de arrumar um gabinete, de escolher as coisas para dar à família e de ajudar a redigir a notícia para ser publicada nos jornais pelo Instituto.

Conceição Monteiro passou pelo mesmo. A mulher que assessorou Francisco Sá Carneiro desde a fundação do PPD até ao dia 4 de dezembro de 1980, data da queda do avião em Camarate, onde seguia também além do então primeiro-ministro, o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, e Snu Abecassis. “Quem devia ir ao Porto já lá estava, era o Francisco Pinto Balsemão, nós tínhamos um comício com o general Soares Carneiro em Setúbal. Antes disso fomos a Évora, no dia 1 de dezembro.

Ele e a Snu tinham ido dormir ao Buçaco para descansar um bocadinho. O Francisco concentrava-se tanto na campanha que chegava a fazer quatro comícios ao sábado e ao domingo, aquilo era uma estafa. Em Évora, chega um telefonema de Lisboa a pedir para eu ligar com urgência a António Capucho (diretor de campanha de Soares Carneiro). Eles já estavam a subir ao palco e o telefonema ficou para mais tarde. ‘O Porto está a correr mal e o Balsemão pede reforços para o comício de dia 4.

Ele já sabia que o Sá Carneiro ia para Setúbal por isso pedia que o Diogo Freitas do Amaral fosse até ao Porto. Comuniquei aos dois o que se passava e eles decidiram naquela noite que o melhor era ir o Sá Carneiro, uma vez que era do Porto e eram precisos reforços”, conta. E acrescenta: “Eles tinham combinado ir por volta das seis e meia da tarde, que era para irem jantar ao Escondidinho, eram uns comilões, o Francisco era muito bom garfo, gostava muito de comida”.

Em casa descansada a jantar, soube do sucedido por um dos guarda-costas de Sá Carneiro, o subchefe Ramalhete que vai dar-lhe a notícia. Já não parou mais. Entre telefonemas e lágrimas, passou a noite em São Bento a ajudar Freitas do Amaral a tratar de toda a papelada do primeiro-ministro que acabara de morrer.

“Era uma pessoa encantadora, de uma boa educação a toda a prova, de uma pontualidade doentia, e muito simpática. Nunca conheci ninguém que, a não ser por razões políticas, não simpatizasse com ele, desde o motorista ao rapaz que entregava os comunicados. Era um homem de hábitos, muito organizado, sabia exatamente o que queria, por onde devia ir e onde queria chegar.”

Um dia, ainda a sede do PPD-PSD era na Buenos Aires, em Lisboa, Conceição recebeu das mãos de Sá Carneiro uma lista manuscrita com uns 18, 19 ou 20 nomes. “Uns conhecia-os lindamente, outros não fazia a mais pequena ideia de quem eram. Pediu-me para saber os números de telefone de casa e dos escritórios daquelas pessoas e até me deu algumas ajudas. Passei a lista à máquina, ainda a tenho, e depois percebi, eram os ministros! ‘Tenha esta gente contactável’.”

Num dia 4, mas de julho de 2001, Dores Cunha começa a secretariar o economista Vítor Bento, à frente dos destinos da SIBS. “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”, cita a frase de Pessoa para a primeira campanha publicitária da Coca-Cola em Portugal. Era a primeira vez que trabalhava num mundo financeiro e muito ligado à banca.

E encontrou diferenças. “Secretariar uma pessoa que também era figura pública implica trabalho acrescido. Sobretudo no que diz respeito ao contacto com os jornalistas e na resposta às solicitações para a pessoa comparecer a congressos, conferências e afins. Mas também implica que o rigor tenha de ser o dobro, que o cuidado e a atenção aos pormenores tenham de ser ainda maiores.”

Com o pacote inteiro, como se costuma dizer entre estas profissionais, a assessoria a Vítor Bento não só incluía a preparação da agenda e de todas as reuniões, a triagem de chamadas, o arquivamento de documentação, a organização de eventos, dos pequenos-almoços aos almoços de trabalho, como também tratar da sua vida pessoal, ou seja, a carta de condução que tem de ser renovada ou o cartão de cidadão, marcação de consultas… Tudo. A seu cargo, Dores Cunha tinha todos os telefonemas do chefe. “O uso do telemóvel do doutor Vítor Bento era muito restrito.”

Com muita atenção aos pormenores também, Céu Sobral diz que “conhecer as pessoas de trás para a frente e ter tarimba, são também condições essenciais à profissão de secretária. “Uma vez, o Dias Loureiro ia dar uma entrevista, uma espécie de inquérito de última página de jornal. Disse-lhe que não podia responder. Ele perguntou-me porquê e expliquei: fazem aqui duas perguntas perigosas, se já viu filmes pornográficos, se disser que sim fica mal visto e se disser que não é mentiroso; a outra pergunta está relacionada com a candidatura de Mário Soares à presidência e também não vai poder responder se o partido o apoia ou não. Por isso não faça o inquérito.”

Há uma solidariedade muito grande entre secretárias mas também é preciso conquistar a confiança de cada uma. É Dores Cunha quem o diz. Para ela e para as colegas, só assim se cria uma rede que lhes torna o trabalho muito mais fácil. Quem está do outro lado, diz Dores, merece tanto respeito e atenção como quem está ao nosso lado. “Sem isso não vamos a lado nenhum!”

Céu queixa-se da escravatura do tempo e explica que a maioria dos chefes que teve lhe exigiam disponibilidade total. “O Pedro Passos Coelho foi dos poucos a dizer para não me preocupar com os horários, que ele ficava sozinho. Já o Durão Barroso até à hora de almoço tinha de ter alguém por perto.”

As histórias são mais do que muitas, do ter de levar gente até à sede do partido, como um embaixador dos Emirados Árabes Unidos que lhe chegou a dar dois presentes, um relógio de prata de usar ao pescoço “amoroso” e um leque à espanhola “do mais possidónio que há”, até a encaixar pessoas em jantares e almoços.

“Tenho muita pena de não ter apanhado o António Capucho quando tinha 20 anos. Não seria tão caótica. Ele é fantástico do ponto de vista organizacional. Chega a um sítio, pega nas coisas que há e faz o gabinete mais giro do mundo. Tudo uma questão de organização. Ele até dá o papel com a indicação de onde se deve arquivá-lo.”

Francisco Sá Carneiro tinha um artigo semanal no jornal “Povo Livre” e mandava-o normalmente com tempo suficiente para Conceição Monteiro o datilografar, rever e enviar para a tipografia. Mas houve uma semana em que ele não conseguiu escrever o artigo que tinha de sair.

“Tinha um gravador Sony que até tinha sido ele quem mo tinha dado para gravar as suas intervenções. E como tinha gravado um discurso de que tinha gostado muito e sobre o qual ele ainda não tinha escrito, fui buscar a cassete, passei ao papel, resumi para caber no espaço que lhe era dado e mandei para o jornal. Depois contei-lhe ao telefone e ele disse: ‘Ótimo’. Achou absolutamente natural que eu tivesse feito aquilo. Era preciso!”

Conceição Monteiro, como Dores Cunha, “tinha o pacote todo” da organização da vida de Sá Carneiro. “Comecei a tratar também da sua vida pessoal, sobretudo a partir do momento em que ele e a Snu foram viver juntos. Eles gostavam de ter uns jantares lá em casa.

E era eu quem fazia os convites e contactos. O resto era a Snu, uma dona de casa extraordinária, que não deixava que nada corresse menos do que lindamente. Eram sempre jantares para 12 pessoas, porque era o número de lugares à mesa. Combinava-se quem se dava bem com quem, fazíamos misturas e se um não podia ir pensávamos e tratávamos de escolher alguém que se adaptasse ao grupo para o substituir.”

Em 1985, Cavaco Silva é eleito primeiro-ministro depois de ter ganho o congresso do PSD na Figueira da Foz, onde foi fazer a célebre rodagem do carro, e pede para falar com Conceição. “Fui a casa dele e ele perguntou-me se queria trabalhar com ele e eu aceitei. Fui com ele para São Bento como adjunta. Mas eram maneiras completamente diferentes de trabalhar. Também havia uma relação simpática, mas não era a mesma coisa. Cheguei a ir com ele e com a Maria para o Algarve. Estava um calor tão grande que passava os dias de molho na piscina.”

Mais tarde, no partido, Céu Sobral também o secretariava. “Ao professor Cavaco não me atrevia a dizer coisa alguma e fiz duas campanhas dele — 1998 e 2006. Ele não dava margem nenhuma.”

A realização profissional destas supermulheres é total. Workaholics de coração ou por obrigação e brio, dedicam vidas às vidas dos outros. Discretas, mas muito bem apresentadas — “somos a imagem da empresa e de quem secretariamos” —, são o elo essencial entre o gabinete ou escritório e os centros de decisão.

“Nunca nos pomos em bicos dos pés, vivemos na sombra”, diz Céu Sobral. Capaz de vender gelo a esquimós, como lhe disse uma professora num dos cursos de formação que frequentou — gestão de tempo, resiliência e gestão de conflitos, Dores Cunha vai mais longe: “Se um diretor ficar doente em casa, talvez só deem por falta dele a meio do dia, mas se a secretária não estiver a horas toda a empresa dá conta.”

Todas juntas deixam a mesma mensagem: “Esta é uma profissão que não está em vias de extinção, antes pelo contrário”, diz Dores Cunha. “Nos dias de hoje cada vez será mais precisa”, adianta Sara Netto. “Não há robô nem tecnologia que a ultrapasse”, assegura Céu Sobral. E, além disso, a julgar pela amostra, será sempre o último reduto da hegemonia feminina.

ALEXANDRA CARITA ” EXPRESSO ” ( PORTUGAL)

 

 

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