OS ENCONTROS NA NET QUE APROXIMAM O PESSOAL DO “ENTA”

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O número de “mensagens na garrafa” atiradas ao mar dos algoritmos aumenta a partir da meia idade, sugerem os primeiros estudos sobre os perfis dos frequentadores de sites e apps

“Procuro alguém para amizade ou algo mais”. O “mais” pode ser curtir, viajar ou amar, ou todos ao mesmo tempo. E se um dia um adolescente se cruzar com o avô ou a avó num site de encontros ou numa das apps da moda, isso é … o novo normal. Desengane-se pois, quem pensa que os chamados “seniores”, “cotas” e outros termos pouco empáticos só circulam nas plataformas concebidas especificamente para “frequentadores com a idade deles”.

Quem cresceu nos anos coloridos da revolução sexual – “faz amor e não a guerra” – e transpôs a fronteira dos “entas”, experimenta agora os prazeres da longevidade e sente-se capaz de ir, não para o céu, mas para todo o lado, sem vergonhas nem justificações e, menos ainda, sem ser no registo clandestino. Isto é algo que outras gerações nunca souberam o que era, dada a menor esperança de vida e o facto de não existirem tecnologias digitais (para quem se lembra, só havia o slogan publicitário da lista telefónica, “vá pelos seus dedos”).

Num artigo publicado na revista Psychology Today, em 2013, faz-se referência a um inquérito sobre o uso de sites de encontros onde “os adultos com 60 ou mais anos representam o segmento de utilizadores que mais cresceu nos últimos anos”.

Este grupo etário parece render-se aos serviços de encontros com o mesmo fascínio que Aladino tinha diante da lanterna mágica:

– Usam, com frequência, a palavra escrita no espaço dedicado à apresentação ou perfil nos serviços que usam questionários de compatibilidade, mas também nas apps, baseadas quase exclusivamente na imagem.

– Mais vezes do que menos, vão além do “embrulho” visual, que impera nas apps que estão em voga (e não faltam candidatos a empreendedores a querer lançar mais uma no mercado, assim consigam o financiamento necessário).

– Raramente se inscrevem apenas ”porque é onde toda a gente está”. E se não sabem, pelo menos aparentam saber o que querem e ao que vão, ou seja, o que desejam ou esperam encontrar num(a) parceiro(a).

– Abundam as faixas de música e as citações, jocosas ou sérias, em função do que se procura: sexo casual, relação de curta ou longa duração, amizades e/ou algo mais. Um clássico de muitos cartões de visita: “Universidade da vida” (nas habilitações).

Segundo as estatísticas demográficas, metade das pessoas com idade igual ou superior a 65 anos estão separadas, divorciadas ou viúvas (sem contar com as solteiras). Em Portugal, representam mais de um quarto da população residente (26%), com um valor superior a dois milhões e meio de pessoas. E o que querem eles, o alvo apetecível para os “casamenteiros” profissionais da era digital? “Companheirismo” é o termo que mais aparece nos estudos que analisam os conteúdos dos perfis destes novos protagonistas que conquistaram o direito de serem felizes à sua maneira.

“Ainda loucos, ao fim destes anos todos”

Quando já se tem estrada feita e sobra energia para mais, cada minuto bem vivido é um minuto ganho. Cada um diz ao que vem e , à semelhança do que sucede nas faixas etárias mais jovens, há de tudo para todos os gostos: adeptos de estilos de vida não monogâmicos, viajantes profissionais simpatizantes do sexo casual, mesmo que o apelidem de “novas amizades” e candidatos a exercitar práticas sexuais minoritárias, mas não menos interessantes, em nome do auto-conhecimento. No essencial, continua a querer-se sexo, amor e tudo o que caiba entre eles, só que agora esse desejo tem rosto e dá-se a conhecer ao mundo, sem sombra de pecado.

Alguns excertos de mensagens “enviadas na garrafa” para o oceano digital:

– Mulher, 62 anos: “Sou uma pessoa descontraída e capaz de ser intensa. Se te consideras uma pessoa interessante e auto-confiante, leste com atenção o meu perfil e gostaste, contacta-me por mensagem.”

– Homem, 59 anos: “Tenho uma vida ativa e considero-me uma pessoa corajosa. Não pretendo ter filhos, mas tenho um cão. A mulher certa para mim é independente, gosta de viajar e quer um relacionamento por vontade e não porque precisa.”

– Mulher, 65 anos: “Profissional liberal, com filho adulto e autónomo. Gosto de pessoas não convencionais e com estilos de vida saudáveis. Se estás em forma, tens autonomia financeira e uma mente aberta e criativa, vamos conhecer-nos?”

– Homem, 70 anos: “Reformado, a viajar pelo mundo. Procuro mulher culta, com sentido de humor, ousadia e tempo livre para partilhar bons momentos ou algo mais, de forma descomplicada e sem dramas. Fotos actuais, agradecem-se.”

Um estudo da psicóloga Cláudia Casimiro, de 2014, sobre as diferenças de género em sites de encontros, analisou 200 perfis do Meetic (à data era o mais popular na Europa) e concluiu há estereótipos de género que permanecem e se reflectem online: “Os homens destacam os seus atributos racionais e práticos nos seus perfis, bem como o estatuto profissional e económico, enquanto as mulheres valorizam as facetas emocionais e afetivas e, sobretudo, os atributos físicos que as tornam atraentes.”

Companheirismo sem rótulos

Como explicar tanta actividade nos media sociais em geral e nos “pontos de encontro” para quem está sexual e / ou emocionalmente disponível, a partir de “uma certa idade” (outro eufemismo para ”longevidade”, mais o estigma e o medo do envelhecimento)?

Em primeiro lugar, vamos falar de medidas. A quantidade importa, mas a qualidade também e as preferências sexuais já não ficam no armário. Deixa de fazer-se fretes como antes, só para ter o bolo na mão (ou comê-lo, consoante o caso). Em segundo lugar, o estado de insanidade agridoce que dá pelo nome de romance leva-se com uma leveza diferente. A paixão vive-se com menos drama e sentimentos de ciúme e de posse. Em princípio, tem-se uma maior consciência de si e do outro, sem confundir o que é da mochila de cada um com o que pode ser partilhado sem complicações.

Por fim, o amor, essa abstração sem contornos definidos, que poderemos designar por companheirismo sem rótulos e que costuma ser expressa (e apreciada) através de coisas simples, pelas quais se fica grato, a saber: 1 – ser capaz de aceitar-se como se é; 2 – conseguir aceitar os outros como são; 3 – fazer algo entusiasmante a seguir a isso.

Os resultados da investigação das americanas Karen Fingerman e Eden Davis, publicada no Journals of Gerontology (2016), parecem confirmar estes pressupostos. A análise de quatro mil perfis de frequentadores de sites de encontros (idades entre os 18 e os 95 anos), traduziu-se em três grupos de palavras mais comuns (uma espécie de Top 3):

– Na amostra: “Amor” (67%), “Gostar” (62%), “À procura” (55%) e “Alguém” (50%)

– Entre os 18 e os 29 anos: “Trabalho” (38%), “Ter” (36%) e “Ir” (30%)

– A partir dos 65 e mais anos: “Viajar” (31%), “Ótimo” (24%) e “Relação” (19%)

As autoras, que se dedicam ao estudo da família e ao desenvolvimento ao longo da vida, concluíram que no discurso autobiográfico dos mais jovens é frequente o uso de pronomes na primeira pessoa: “Eu” e “meu”. Já no texto de apresentação dos frequentadores mais velhos o pronome da terceira pessoa do plural – “Nós” – e a palavra “relacionamento” eram mais usados.

Outro dado interessante: o factor “sexo” está vivo e recomenda-se em todos os grupos etários, derrubando o mito de que a idade limita o vigor, a beleza e a motivação para o prazer. Mas há uma diferença: com o passar do tempo, deixa de fazer sentido gastar bateria em coisas que antes eram “um assunto de vida ou de morte” e que agora parecem ter uma importância relativa ou mesmo nenhuma como, por exemplo, entregar-se ao penoso exercício (ou vício) de escolher entre liberdade e compromisso ou ficar refém de dilemas semelhantes (“quem procura sempre alcança” v.s. “quem muito escolhe pouco acerta”).

E porque toda a regra tem excepção, o oposto também pode acontecer: adultos “seniores” que pensam, sentem e agem como adolescentes tardios ou crianças que nunca cresceram e, mais contrastante ainda, que se aventuram pouco – ou quase nada – por sua conta e risco em território desconhecido. Os desafios da intimidade são tudo menos lineares e não oferecem garantias. Compreender isto leva tempo. E é por isso que a longevidade nos salva, depurando os sonhos de excessos líricos e cargas trágicas e criando novas oportunidades para os viver plenamente.

CLARA SOARES ” REVISTA VISÃO” ( PORTUGAL)

Clara Soares é jornalista e psicóloga

 

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