A AGONIA E O CONFLITO POLÍTICO NO BRASIL SERÃO LONGOS E ARRASTADOS

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Quando Dilma Rousseff teve seu mandato cassado, não houve resistência. No plano do Legislativo, a presidente, isolada pela ação do PMDB, perdera apoio; sequer míseros 172 votos Dilma e o PT foram capazes de garantir — o que não deixa de ser um fenômeno, diante do poder que a caneta do Poder Executivo possui no Brasil. No plano social, nem a mítica militância petista nem o tal ”exército do Stédile” deram as caras. Foi surpreendentemente fácil: o governo caiu como a cabana de palha do porquinho Cícero, bastou um assopro.

Com Michel Temer, o processo não será tão simples, sem enfrentamento. Dadas as condições gerais da política nacional, o avanço da Operação Lava Jato e as perspectivas de punição, para Temer e seu grupo, permanecer no poder é muito mais vital do que foi para Dilma. A denúncia do Procurador-Geral da República contra o presidente iniciará, portanto, uma nova e mais complexa fase da crise: o ambiente político vai piorar, o ruído, a dissonância e a pressão subirão vários graus.

Evidente que Michel Temer poderá contar com grupos sociais nas ruas, em sua proteção; a popularidade presidencial rasteja e não será por aí que se defenderá — ainda que se valha do silêncio obsequioso de grupos antes radicalizados contra a política nacional. Será na Câmara dos Deputados que os operadores do presidente se pintarão para a guerra e mostrarão sua força, resistindo e atacando; negando ao limite os pedidos de Rodrigo Janot, blindando ao presidente para protegerem-se a si próprios.

O atual governo não se inibirá em mobilizar todos os recursos de Estado de que dispõe: a discricionariedade do ministério da Justiça, as prerrogativas presidenciais na escolha do novo Procurador-Geral da República, os instrumentos da Abin, as conexões com setores e personagens do Judiciário; e, claro — pela força de recursos ministeriais e pelo pavor com a Lava Jato —, o poder de cooptação capaz de movimentar a infantaria parlamentar.

Por outro lado, também o Ministério Público, importantes veículos de comunicação e setores não comprometidos da oposição (Rede e PSOL) não recolherão armas. Dificilmente, cederão à pressões, bravatas e aos encantos do Executivo. Novos escândalos, o aprofundamento dos já existentes, a intransigente obstrução de sessões na Câmara e o chamamento à participação popular, tudo isto estará na ordem do dia. A batalha será diária, longa e cansativa. E, quanto mais acirrada, tanto mais sangrenta.

Rodrigo Janot, já se disse aqui, é um enxadrista competente: tem em mente as reações a este lance e projeta as próximas peças que deslocará em seu tabuleiro. Por prever as jogadas do adversário, a denúncia virá em parcelas; apresentá-la em três etapas, forçará a Câmara a exaurir-se em desgastes múltiplos, induzida ao constrangimento repetitivo e renovado, marcada na lembrança do eleitor na postura, no posicionamento e no voto de cada parlamentar. Janot planeja acuar o adversário, colocando-o ao xeque — mesmo que não seja ”mate”.

Em paralelo, o combustível que ainda virá de Curitiba: a nova série de delações premiadas que está sendo preparada — Antônio Palocci, Lúcio Funaro e, por inércia, Eduardo Cunha. Sem contar, é evidente, com o desespero de Rodrigo Rocha Loures, quando levado for à Papuda. O ministério Público parece ter em mãos um arsenal bastante superior ao exército já combalido do presidente, que antes de tudo, joga com o tempo, esperando setembro chegar, na esperança de remover o adversário da PGR.

Junto disto, virão as tais ondas de comunicação: a divulgação do conflito, a difusão dos escândalos, a aflição com o futuro moldando a opinião pública e vergando aliados flexíveis como o PSDB, por exemplo. Manifestações como a de Fernando Henrique Cardoso, isolando Temer de setores empresariais — cada vez menos iludidos com as possibilidades de reforma com este governo —, recomendando ao presidente que peça para sair, tendem a se repetir.

Há, no entanto, pouquíssimo espaço para saídas negociadas, acordos de conciliação. O humor popular e as instituições que se empoderaram com o impeachment não assimilariam indulgências que o sistema político pudesse aceitar de bom grado, como uma saída pelos fundos, mesmo que desonrosa. Tampouco não há liderança política capaz de persuadir a opinião pública nesse sentido.

Nada disto, no entanto, indica que Michel Temer, ao fim e ao cabo, cairá de seu cargo antes de 31 de dezembro de 2018. O impasse que se prolonga no tempo e que arrasta a disputa é sempre uma opção para o jogador. Esperar a cavalaria, sabe-se lá de onde, resume o vício da esperança de qualquer moribundo. Diante das restrições que se impõem, o ”gesto de grandeza”, como apelou FHC, é pouco provável. De modo geral, em política, isto só existe como rara exceção.

CARLOS MELO ” BLOG DO CARLOS MELO” ( BRASIL)

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

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