QUANDO OS FATOS NOVOS SÓ FAZEM REPRODUZIR A MARMOTA DE SEMPRE

ht04Mn9Dq2Exz6kdvZdk525HZ34

A prisão de Geddel Vieira Lima é mais uma flechada no São Sebastião sangrado em que se transformou o governo Temer. Piora a situação, é evidente; mas, não constitui surpresa: o ex-ministro já antevia sua sorte e, ao que consta, tentava bloquear a Justiça. No Planalto, seu efeito máximo foi aumentar o temor pelos seus: a fila anda e o governo se preocupa com Eliseu Padilha e Wellington Moreira Franco, diz o Estadão.

Também a prisão de Jacob Barata Filho, no Rio de Janeiro, não implica em novidade: finalmente, a polícia chegou a um dos esquemas de corrupção mais manjados nos municípios, os transportes públicos. Como todos os setores que se envolvem com o Estado, este também começou a desmoronar. É mais um e é bom que assim seja. A questão é que esse processo parece não ter fim. No longo prazo, talvez, se construa o novo; o problema é que no presente só se vê o passado — um museu de grandes novidades que pode comprometer o futuro.

Com menos graça e inteligência que numa comédia, a conjuntura nacional pode ser comparada a um blockbuster americano, chamado ”O Feitiço do Tempo” (ou ”O Dia da Marmota”). O filme, de 1993, retrata uma situação cômica em que o mesmo dia se reinicia a cada manhã; dezenas de vezes, cenas e situações se repetem e a confusão aumenta. Todavia, ao dar-se conta do fenômeno, o protagonista (Bill Murray) se ajusta, corrigindo as interações ao longo processo. Ao final, transforma-se num sujeito melhor e conquista o coração da mocinha (Andie MacDowell).

Já o Brasil de Geddéis e Baratas parece condenado à mesmice maldita mesmo: cenas de prisões e escândalos de corrupção se sucedem, como capítulos repetidos de uma novela que se arrasta. Os personagens insistem no velho enredo; a situação só piora. Desatento, o cidadão não percebe o feitiço que o domina: rostos mais ou menos conhecidos repetem desculpas, com sinais trocados; as condições gerais se deterioram. Nada de glamour hollywoodiano; trata-se de um filme B, de terror banal e sem fim.

Quando não é Eduardo Cunha, é Lúcio Funaro; quando não é Rodrigo Rocha Loures, é Henrique Eduardo Alves; quando não é o próprio Michel Temer, é Geddel Vieira Lima. Quando não é João Vaccari, é Antônio Palocci; quando não é Lula, é Aécio Neves. Todos enredados no roteiro que aos poucos ficou desinteressante. A polícia prende, os juízes liberam; a polícia torna a prender, novos prisioneiros ocupam as mesmas celas. Na infecção intestinal do país, prisões e solturas se alternam.

Sujeita à disposição dos protagonistas da política, a sociedade queda paralisada. À piora das condições fiscais e econômicas, se junta o agravamento de questões sociais: desemprego, endividamento, serviços públicos de péssima qualidade, violência rural e urbana; crianças baleadas no ventre da mãe.  Ninguém sai às ruas — até porque não se acredita que resolvam; os movimentos de ontem mostraram que não tinham amanhã. O rancor da sociedade é, porém, guardado na geladeira para ser usado em outro momento.

Pesquisas divulgadas nos últimos dias demonstram que a desolação pode não ser um sentimento apenas estéril: ela evolui em revoltas subjetivas e protestos calados que somente mais tarde poderão explodir, se não nas ruas, nas urnas. Sem centro político, a polarização está posta. Oportunistas de qualquer canto e populistas de todos os matizes se movimentam pelo melhor lugar no grid de largada de 2018.

Na Câmara dos Deputados, como antenas, os parlamentares captam esse sentimento geral. Não o reproduzem como representantes da sociedade e, assim, tampouco se mobilizam pela solução do problema — à maioria falta estatura. Mas, se organizam em virtude do cenário que vislumbram: novas solturas e novas prisões; o labirinto sem saída; a fúria das ruas, o populismo e o oportunismo eleitoral. Correm recolher raspas e restos do governo; sugam o bagaço dos recursos. Acordos só os pontuais; amanhã tudo se repetirá. Os urubus pressentem a carniça.

Michel Temer não tem, desse modo, quem o defenda; há uma debandada em sua base. No pronunciamento que fez em sua defesa, o presidente atrasou o relógio à espera do público que não veio. Até os áulicos se escondem. Torce, assim, para manter meros 172 votos ou omissões suficientes apenas para que ganhe tempo, arrastando o jogo que não tem futuro. Mas, sabe que em três votações nominais, entremeadas por desgastes sucessivos, será difícil se segurar.

Dilma Rousseff repetiu Fernando Collor; a possibilidade de Temer seguir o destino de Dilma está posta. Se isto ocorrer, virá Rodrigo Maia e, depois dele, outro e possivelmente mais outro. O elenco de atores e personagens é limitado; sem renovação, o roteiro não evolui. Os protagonistas desse filme ainda não o compreenderam; não se corrigem, cometem os mesmos erros. Enquanto isto ocorrer, reproduzirão o mesmo dia e a mesma marmota.

CARLOS MELO “BLOG DO CARLOS MELO”( BRASIL)

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s