SALVE O RIO, SÃO SEBASTIÃO !

flechado

 

Do Blog do Marceu Vieira, carioca da Baixada (como outros são do Acre, de Minas, do Rio Grande…) com a delicadeza humana que não pode morrer, como não pode este Rio de Janeiro, tão flechado:

Moacyr Luz, Adir Blanc e Paulo César Pinheiro, parceiros em “Saudades da Guanabara”, escreveram o verso: “Brasil, tira as flechas do peito do meu padroeiro, que São Sebastião do Rio de Janeiro ainda pode se salvar.”

Em “Samba de Orly”, composto nos dias de fel da ditadura militar, Chico Buarque, Toquinho e Vinicius de Moraes imploravam à legião de exilados cariocas que voltasse logo ao Rio e abraçasse a cidade e a tomasse no colo e a ninasse: “Vai, meu irmão, pegue esse avião (…), antes que um aventureiro lance mão.”

De lá pra cá, tantas foram as flechadas no peito do padroeiro, tantos foram os aventureiros acampados no poder da mais bela paragem do Brasil, tanta foi a desdita com o Rio, tanta sacanagem se aprontou com nossa gente, tanta mesmo, que, como dizia o Brizola, “francamente”, a alma fica até desesperançada no futuro desta terra, onde nasceram gênios como Villa-Lobos, Tom Jobim, Lima Barreto, muitos outros.

Abre parêntese. Por falar em Brizola, no dia 10 de dezembro de 1985, então governador do Rio, o caudilho (perdão por chamá-lo de novo assim, excelência) incorporou à frota da finada CTC (Companhia Estadual de Transportes Coletivos) 1.817 ônibus de 16 empresas privadas. Fez isso em reação aos abusos dos empresários, pra oferecer tarifas mais justas ao povão.

Brizola foi muito criticado na época pela elite que não anda de ônibus – nunca andará. Também foi criticado por construir escolas em tempo integral com alimentação boa e piscina olímpica pra criançada pobre e por apontar pra um ensino público de excelência.

E ainda foi muito atacado por exigir decência da polícia e garantir direitos humanos aos cidadãos das favelas – a maioria, pretos.

Tão criticado foi que, na eleição seguinte, o direitista Moreira Franco, velhaco conhecido do brasileiro, venceu a disputa contra o professor Darcy Ribeiro, com a promessa de desconstruir o ensino em tempo integral e “acabar com a violência em seis meses”. Moreira, hoje braço direito do Temer, já era representante dessa súcia famélica que voltou ao poder com o impeachment da Dilma. Fecha parênteses.

Nos últimos dias, duas crianças foram atingidas por balas perdidas e tiveram a infância roubada no Rio. Uma ainda estava no ventre da mãe, e agora corre risco de sobreviver pra uma existência em que não poderá sequer andar. Outra tinha apenas 10 anos de idade e brincava numa favela do subúrbio quando teve a cabeça destroçada por um projétil de fuzil.

Abre parentese de novo. A violência não terminaria em seis meses com essa emplumada camarilha no poder? Quantos seis meses se passaram desde a promessa do Moreira? Fecha este novo parêntese.

Também nos últimos dias, ficou-se sabendo que Sérgio Cabral e seus comparsas do guardanapo, todos do PMDB do Temer e do Moreira, embolsaram milhões de empresas de ônibus pra lhes garantir benesses. Abre mais um parêntese. Como ficam as antigas críticas da elite bem alimentada e que só anda de carro ou de helicóptero, tão defendida pela mídia dominante na época da encampação dos ônibus pelo Brizola? O que diz agora, na sua conveniência mesquinha? Fecha mais este parêntese.

O Rio é o arco de entrada do “Brasil brasileiro, esse Brasil lindo e trigueiro, terra do samba e do pandeiro”, como diz a “Aquarela” escrita pelo mineiro Ary Barroso. Tudo vai mal no país do “coqueiro que dá coco, onde amarro a minha rede nas noites claras de luar” se o Rio vai mal também – e o Rio segue pessimamente mal, numa sofrência sem fim, rumo ao precipício deste primeiro terço de século.

Tudo isso já seria motivo pro impeachment do Temer, do Pezão, do Moreira, do PMDB inteiro e de seus ramais auxiliares por onde engordam os Rodrigos Maias e os Aécios Neves e seus siameses todos, que vivem de mamar e mamar e mamar nas tetas já quase murchas da Nação.

Se um dia o Brasil morrer, o Rio, que hoje tem na prefeitura da capital um líder de igreja empresarial inimigo dos gays, um inimigo da Umbanda e das rodas públicas de samba, se isso acontecer, o ex-paraíso dos Tupis, dos Tamoios e dos Tupinambás, fundado por Estácio de Sá, terá morrido primeiro.

A morte do Rio, que seria a do Brasil, parece encomendada. Só não virá se os braços que até outro dia batiam panelas pela saída da Dilma se reunirem de novo, agora pra retirar as flechas do peito do padroeiro.

É preciso pressa. Antes que um novo aventureiro lance mão.

MARCEU VIEIRA ” BLOG DO MARCEU VIEIRA” ( BRASIL)

 

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