NOS BASTIDORES, RODRIGO MAIA SE AFASTA SUTILMENTE DE TEMER

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A Ulysses Guimarães se atribuiu feitos e frases que, no deserto de líderes que há hoje, o tornam uma espécie de mito. A ele se recorre com frequência: o ”Doutor Ulysses” viu de tudo, sabia tudo, era sagaz e bom frasista. Transformou-se, com o tempo, numa espécie de ”enciclopédia da política”, assim como Nilton Santos foi no futebol. Atribui-se a Ulysses a frase: ”a política adora a traição, mas despreza o traidor”.

Com efeito, a dinâmica da política parece mesmo assim. É baseada em acordos, em pactos; a palavra dada vale muito. Mas, no limite, a traição também está em seu cálculo: Brutus fez isto com César; o PFL, com o general Figueiredo; Aécio Neves; com Inocêncio de Oliveira. Inúmeros são os casos. Por isso, políticos experientes confiam pouco — o insondável Getúlio confiava apenas na filha; foi traído pelo irmão.

Quando do processo de desgaste e impeachment de Dilma Rousseff, escrevi que Michel Temer se metia numa cilada política (leia aqui); faltava-lhe o vigor das urnas e sobrava-lhe o comprometimento com o sistema com o qual Dilma não mais se entendia. Temer não foi escolhido pela sorte, sua assunção ao poder não foi acidental, fortuita: vice, conspirou contra a inábil e teimosa presidente — um caso desde sempre perdido, ok, mas cujas circunstâncias e o falso decoro pediam compostura; no mínimo, algum recato disfarçado.

Comparado a José Sarney, que assumiu sob a agonia de Tancredo, Temer carecia do drama histórico, da ironia do destino, da aura da tragédia. Ao contrário de Itamar Franco, Temer não sabia expressar desinteresse e desapegos mais ou menos sinceros. A reunião do PMDB, que definiu o desembarque do governo Dilma, por ele comandada, foi um indisfarçado espetáculo de oportunismo. O vice de Dilma agiu como se Sarney tivesse ido à missa pedir pela morte de Tancredo. Poucos o censuraram, mas todos registraram o comportamento.

Temer assumiu a presidência sob as benções do sistema e a ilusão do mercado, que imaginou ser aquela a chance de fazer as reformas econômicas de uma vez por todas — sem o envolvimento da sociedade e sem o comprometimento eleitoral. O sistema, no entanto, impôs a Temer, sendo um dos seus, sua própria razão: a manutenção do status quo, sem comprometimento da segurança que a Operação Lava Jato ameaçava e ainda ameaça.

Na economia, é real, sua equipe buscou e busca alterações importantes na lógica do Estado brasileiro. Mas, na política, o presidente preservou a lógica com a qual, sabia-se, esteve desde sempre envolvido. No resumo, a política não contribui com a economia e a demora da recuperação econômica tem sido fator importante para agravar a situação política: o que se vê é uma cobra se comendo pelo rabo.

Se naquele momento do impeachment pesaram o ardor e o elogio à traição, hoje o que parece pegar é mesmo o desprezo ao traidor. A opinião pública revela seu desamor a Michel Temer que, de algum modo, consegue o prodígio de unificar as bases sociais do petismo e do antipetismo contra ele. É abandonado aos poucos por aliados que até ontem juravam-lhe fidelidade. O compromisso, Temer compreende, vai à beira do penhasco, mas não se atira ao precipício.

A escolha de Sérgio Zveiter como relator, na CCJ, do pedido de autorização ao Procurador-Geral para processar o presidente, dá a medida do descolamento gradual da base com Temer e de Rodrigo Maia, em particular, que, ao final, controlará o processo ao seu interesse. Vice, de fato, o presidente da Câmara se movimenta nos bastidores: conversa, especula, conjectura, sabe da força do destino, mas também compreende que, às vezes, o destino precisa de uma forcinha especial para se desenrolar.

A pressão da opinião pública sobre os deputados, em três votações nominais no Plenário, será brutal. Ao mesmo tempo, Michel Temer perde forças: faltam-lhe bons argumentos, a defesa não convence, seus companheiros são recolhidos à prisão; os laços afrouxam. Embora persevere, posto que não tem saída, sua imagem já é a do desânimo. Gradativamente, fica só.

Assim como Temer, Rodrigo Maia será chamado à responsabilidade de proteger o sistema político a que também pertence. Poderá escolher entre afundar com o presidente ou vê-lo afundar sozinho, de modo a que, na sequência, possa ainda mais uma vez preservar o sistema, os aliados, assemelhados e parentes que restam. Resistirá à tentação?

A questão é se já compreende que Temer está em vias de se tornar passado, se entende que seu prazo de validade se esgotou. Neste caso, vê-lo afundar seria natural: a história empurra e a tentação à traição é quase irresistível. Em determinadas circunstâncias, torna-se questão de sobrevivência. Todavia, o ciclo de putrefação da política nacional está acelerado e a mesma história se renova rapidamente.

Além da honestidade, que lhe será questionada, ao filho de César Maia não bastará trair, mas parecer que não traiu — arte que faltou a Michel Temer. Contemplar à pressão por mudança e, ao mesmo tempo, socorrer dezenas de náufragos ao seu redor; conviver com um processo eleitoral que promete muita tensão, com um Ministério Público que indisposto a trégua. Maia pode se revelar numa surpresa, mas, no momento, nada indica ter estatura para isto. O tempo dirá. A política brasileira ainda continuará em seu labirinto.

CARLOS MELO “BLOG DO CARLOS MELO”( BRASIL)

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.


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