LEMBRE-SE, HAJA O QUE HOUVER,É A ARTE QUE NOS PERMITE NÃO MORRER DE VERDADE

Ze-Ramalho-1981-A-terceira-lamina-foto.jpg

São Salvador, Bahia de Todos os Santos. No recesso parlamentar, quando todos os demônios estão soltos, é tempo de respirar e reencontrar um pouco de vida para além da política. O Brasil nasceu aqui e aqui está sua melhor síntese: preto, branco, mestiço; sincrético. De Gregório de Matos Guerra a Carlinhos Brown; Caymmi, Jorge Amado, João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Raul Seixas; Glauber, João Ubaldo, Gal, Bethânia. De Antônio Carlos Magalhães a Jean Wyllys. O Olodum. ”A Bahia tem um jeito” que São Paulo não compreende; Narciso, acha feio.

Concha acústica do Teatro Castro Alves, show do invencível Zé Ramalho, um Bob Dylan do Brasil — ”Bate, bate, bate na porta do céu”; letras tortuosas, harmonia cativante, o desbravador da musicalidade dos anos 1970: ”Neblina turva e brilhante / Em meu cérebro coágulos de sol / Amanita matutina / E que transparente cortina / Ao meu redor”. Avohai. Faz saudade de um tempo que éramos outros, que o país era outro; gosto de um ontem que se perde no presente que escorre pelos dedos. ”Oh, meu velho e indivisível” Brasil, que se esvai.

Garoto, ouvia Zé Ramalho — e tantos outros — com a atenção de quem quer aprender, muito; retirar alguma coisa de tudo e crescer. Encontrar a si mesmo, procurando nos outros. O Brasil que trazia no peito, suspeito, era uma invenção ao redor de 1958: o sorriso e a esperança de Juscelino, a Bossa-Nova, o Cinema Novo, Marta Rocha — outra baiana —, a primeira Copa do Mundo; o gigante adormecido, país do futuro. A crença, o futuro.

De algum modo, o Brasil daria certo; de qualquer forma, daria certo; com força e com vontade, daria certo. E encontraria seu caminho. No maniqueísmo em que se curtia viver, se havia o mal, o bem também havia. No final da história, a justiça e a igualdade triunfariam; a liberdade viria depois. Sim, um pouco da visão romântica (e autoritária?) da esquerda mundial: não havia custo, nada tinha preço; bastava sonhar. ”Sonho que se sonha junto”, dizia-se, ”é realidade”. Raul, outro baiano.

Final da década de 1970, estertores da ditadura, acreditava-se no futuro. E no Brasil. O país se unia na esperança de superar o Regime, dava as mãos em torno da arte que produzia. Mas, o tempo, esse vilão, mostrou que nada é bem assim. A poesia é um caminho doce para a ilusão, mas se perde na dissonância de vontades e opiniões.

No show de Zé Ramalho, no Teatro Castro Alves, naquela Concha Acústica apinhada de senhoras e senhores de meia-idade (jovens, uns poucos), já nos primeiros acordes de ”Caminhando”— ”laia-laiaaá, laia-laiaaá”, simbólico que tenha começado com Vandré —, o gosto amargo do que, afinal, nos restou. A nostalgia é triste, faz lembrar dos dias e amigos que se foram, mas também da unidade perdida.

Não é que o conjunto nacional se perdeu e a sociedade se dividiu em inúmeros grupos distintos e contraditórios; normal, o mundo todo ficou assim. Muito pior, aqui o tecido se esgarçou; da fragmentação, faz-se esse farelo sobre a mesa, que não se junta e nem pode-se aproveitar. Chama atenção que do público não tenha saltado uma única palavra de ordem; nenhuma menção a Temer, Lula, Dilma, Aécio. Ninguém gritou ”Fora QualquerCoisa”. Estamos todos cansados, cansamos da Política ou apenas dessa política? Quem roubou nossa indignação?

Nos anos 1980, dizia-se que as canções de Zé Ramalho eram apocalípticas. Em meio à exuberância de acordes e sons, o sentido fugia; retinha-se o significado num sentimento difuso, perdido entre a garganta e o peito. Mas, hoje o apocalipse chegou. Como profecias, as canções já fazem sentido: ”Dos que vivem calados / Pendurados no tempo / Esquecendo os momentos / Na fundura do poço / Na garganta do fosso / Na voz de um cantador… / E virá como guerra / A terceira mensagem / Na cabeça do homem / Aflição e coragem / Afastado da terra / Ele pensa na fera / Que o começa a devorar…”

Amigo, cicerone e anfitrião, Sandro Cabral, baiano de São Paulo, chama atenção para o artigo de Antônio Prata, na Folha do mesmo domingo, ”Reinventar o Brasil”. Verifico que Joaquim Barbosa também o divulga, pelo Twitter; vou a ele: o autor retoma Darcy Ribeiro. Há pelo menos 15 anos, exibo para alunos ”O Povo Brasileiro”, documentário de Isa Grinspum Ferraz. Lá, diante das câmeras, dedo em riste, olho no olho, Darcy conclama: ”Preste atenção! O mais importante é inventar o Brasil que nós queremos”. Mas, o Brasil não se reinventa; ao contrário, nos últimos anos parece que se desinventa. Perde substância. Compartilho da angústia de Antônio Prata.

Superadas as ilusões é, preciso, porém, encontrar por onde sair do fundo do poço de areia movediça. Superar o sistema político que caducou; juntar farelos, refazer o pão. Mas virá por onde: um demiurgo, um canastrão; as tribos de armas na mão? Imprescindível desfazer o apocalipse; reencontrar a arte que capaz de juntar os contrários. Disse Nietzsche que ”precisamos da arte para não morrer de verdade”.

A profecia fica mais clara: ”Acho que os anos / Irão se passar / Com aquela certeza / Que teremos no olho / Novamente a ideia / De sairmos do poço / Da garganta do fosso / Na voz de um cantador…” Somente a arte nos redime; somente a arte pode fazer reencontrar o Brasil. ”Heiá! Oh! Oh! / Heiá! Oooooooh! / Oh! Oh! Oh! Oh!”.

CARLOS MELO ” BLOG DO CARLOS MELO” ( BRASIL)

Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s