OS DUZENTOS E SESSENTA E TRÊS ZUMBIS DERAM SOBREVIDA AO GOVERNO MORIBUNDO

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Sobrevivência, porém, ainda não está assegurada

O corpo jazia na pedra fria havia quase 2 meses. O sopro vital ainda estava lá, mas a exposição das vísceras expulsas do ventre aberto deixava o ar pesado e nauseabundo. Não era cena digna de um Palácio. A fotografia daquela agonia retrataria melhor um açougue. “Açougue”, entretanto, era palavra maldita.

Carpideiras profissionais começaram a chegar aos salões já nas primeiras horas do passamento. À guiza de convocação, surgiam por todas as portas. Conheciam bem todos os caminhos e desvãos palacianos.

Com um olho choravam o vice-rei agonizante, com o outro perscrutavam o ambiente a fim de identificar quem herdaria a indumentária e a caneta ícones do poder. Estavam a postos para ronronar em louvor: “o Rei está morto. Viva o Rei!”

O desfibrilador usado na 1ª assistência de socorro fora eficaz. Geringonça construída à base do desespero, logrou êxito quando conseguiu evitar a eutanásia assistida do paciente em 18 de maio. Naquele dia o moribundo se convencera da inutilidade da entrega, pois à vergonha da revelação de seus atos sórdidos mais íntimos seguir-se-ia a glória de outro que sentaria à sua cadeira tão logo a vacância se tornasse pública.

Com o passar dos dias a certeza da morte foi se convertendo em esperança de sobrevida e o Palácio viu-se gradativamente obrigado a abandonar os ares de UTI e ganhar contornos de bazar. Trânsfugas da moralidade assumiram a direção da banca. Alguns, antes envergando jalecos brancos de intensivistas, passaram a ser vistos ou imaginados metidos em fatos de mercador libanês. A receita era simples: tudo seria possível ante ousadia e hipocrisia ilimitados.

Era uma guerra. E nos teatros de guerra, sabemos todos, a verdade é a primeira vítima. Colunas de jornal passaram a ser inundadas de versões, meias-verdades, verdade nenhuma. Intrigas eram urdidas em escala industrial pelos spins doctors palacianos e compradas como verdades –sem questionamento– por âncoras, duplas, tercetos e quintetos de comentaristas televisivos.

Flores do recesso, como a pífia sentença do ex-presidente Lula no inquérito do triplex do Guarujá, escassa em provas e pródiga em ilações, foram exibidas e celebradas como caminho à verdade e à vida pelos falsos profetas da reconstrução e da moralidade.

Deu certo. Houve um lote de 263 zumbis que escutaram a melodia tilintante e enganadora da Medina velada pelos Dois Candangos e criam ouvir, nela, o canto de sereia para um futuro próspero e seguro. Levantaram de suas covas e ao custo de R$ 13,2 bilhões em benesses saídas dos cofres públicos, segundo cálculos do jornal Valor Econômico, despojaram-se das próprias vergonhas andrajosas e concederam indulgência plenária à alma que jazia na pedra.

A sobrevida está assegurada. A sobrevivência, ainda não. Haverá outras visitas da Velha Senhora ao prontuário do paciente –mas já se sabe o custo do resseguro do Plano de Saúde. E enquanto houver verba, o verbo a tudo se prestará nos microfones da mídia ou do Parlamento.

A pérfida sessão da Câmara dos Deputados do último dia 2 de agosto deu ao país uma rara oportunidade para que os brasileiros descobrissem por si qual o tamanho da responsabilidade de quem comparece a uma seção eleitoral para votar em seus representantes. Ante o mais absoluto descrédito de um governo que se esvai –mas não foi!– e a ampla descrença na equidade e no equilíbrio da Justiça, consagrou-se a hipocrisia e a vilania.

As criaturas egressas das profundezas, nutridas com a energia vital de um moribundo guardião do poder de editar o Diário Oficial da União, capazes de sugar até o derradeiro fiapo de esperança de toda uma Nação, recebem uma peculiar e muito apropriada classificação de espécie: necrófilos. É o que são.

LUIS COSTA PINTO ” BLOG PODER 360″ ( BRASIL)

 

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