A DITADURA PORTUGUESA DE SALAZAR ESCONDEU 700 MORTOS

 

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“Há 50 anos, eu lembro-me”, disse Marcelo Rebelo de Sousa. De que se lembra o Presidente? Das cheias de 1967 – a maior catástrofe natural em Portugal continental desde 1755 – e de como o regime da altura a quis minimizar. E conseguiu

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Terence Spencer/Getty Images

“Em ditadura, há 50 anos, eu lembro-me, era possível haver tragédias e nunca ninguém percebia bem quais eram os contornos”: a frase foi dita por Marcelo Rebelo de Sousa a propósito da publicação, em final de Julho e pelo Ministério Público, da lista com os nomes das vítimas do incêndio de Pedrógão Grande. Eram outros tempos. E esse desconhecimento público era possível porque “não havia um ministério público autónomo, juízes independentes e comunicação social livre. Em democracia há tudo isto.”

A referência não foi um acaso. Marcelo lembra-se, há 50 anos, de como viveu as cheias de 1967, de como o regime, dentro do possível, as tentou menorizar no espaço público, e não terá feito aquela referência por acaso. A SÁBADO sabe que tentou apurar, junto de um amigo que supunha conhecedor do assunto, afinal quantos mortos houve? Seriam 200, 300? A medida do sucesso do Estado Novo é que até o Presidente da República, que viveu o acontecimento, estava enganado. Terão sido muitos mais: 462 oficialmente reconhecidos, talvez perto de 700 segundos alguns estudos.

A SÁBADO conta-lhe na edição Nº 693, nas bancas no dia 10, a história de como a censura e o regime tentaram minimizar uma tragédia sem paralelo no último século. Uma das ordens para a imprensa foi: “Não falar do mau cheiro dos cadáveres.” E traz-lhe testemunhos de quem viveu a tragédia, de quem foi ajudar e de quem a tentou contar, com dificuldade, nos jornais.

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A escuta em que Salazar apanhou a fundadora da Cáritas a dizer mal do Patriarca A escuta em que Salazar apanhou a fundadora da Cáritas a dizer mal do Patriarca Quando Abílio Rodrigues da Silva chegou ao quartel bombeiros de Odivelas, às 6 da manhã do dia 26 de Novembro de 1967, já lá estavam 17 mortos. Durante os três dias e noites seguintes, nunca parou, ele e os colegas, ninguém foi à cama ou a casa, e Abílio ainda hoje se espanta de como aguentou e aguentaram todos.

“Passaram-me 63 mortos pelas mãos.” Contou-os. E passaram de forma literal: era preciso tirá-los da lama, carregá-los de braços ao alto em tábuas, que não havia macas – nem, na maior parte dos sítios, carro que passasse –, e levá-los até ao quartel. “Os corpos eram contados e levados para o Instituto de Medicina Legal, onde eram arrumados por área de origem, e que “estava cheiinho até acima, íamos todos lá levar, de Algés, de outros sítios, de todo o lado, andávamos por cima dos corpos para pôr os outros”.

MARIA HENRIQUE ESPADA , “REVISTA SÁBADO” ( PORTUGAL)

 

 

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