CONSIDERAÇÕES SOBRE O CASO WAACK E O EFEITO MANADA NA REDE

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Aqui vai um bom desafio para meus colegas, professores de jornalismo e de comunicação: porque há tanta dificuldade para o exercício da mediação nas discussões pelas redes sociais?

Mediador é o sujeito que entra na discussão, apara as posições mais radicais, inclui novos ângulos e tenta fazer a síntese.

Saliente-se que esse personagem não mais existe nem na imprensa diária nem na televisiva. De qualquer modo, as características da velha imprensa facilitavam esse exercício da mediação.

​Antes da Internet, havida a fidelização de leitura não só dos jornais, mas dos colunistas. Todo dia, os leitores acompanhavam os escritos, permitindo analisar a conduta de cada um pelo conjunto da obra, não por um ou outro artigo.

Essa rotina facilitava o jornalismo mais aprofundado, que buscava fugir das coberturas monofásicas da mídia – nas quais, desde o primeiro momento há um culpado e uma vítima, um mocinho e um bandido.

Em um primeiro momento, você poderia desqualificar uma crítica infundada contra o alvo; no momento seguinte, publicar uma crítica fundamentada. O mesmo em relação a governos, elogiar as boas iniciativas e criticar os erros.

Essa capacidade de não fazer pré-julgamentos se chama “discernimento”, e é fundamental no aprimoramento do jornalismo. O discernimento induz a práticas racionais. O alvo das análises fica sabendo que uma boa prática produz elogios e uma má prática produz críticas. E passa a se pautar por esses parâmetros.

Lembro-me de um Seminário de Secretários de Planejamento na Bahia, no qual questionei a falta de iniciativas inovadoras no serviço público. A explicação foi simples. Qualquer mudança de rotinas produz um primeiro momento de confusão, até que o novo processo esteja consolidado. Nesse período, há uma ampla cobertura crítica da mídia. Depois que o novo processo está implementado, sem problemas, não interessa mais ao jornalismo.

O padrão das redes sociais reduziu a flexibilidade dos mediadores e embotou uma prática que já fora abolida pela mídia, no processo de jornalismo de guerra implementado.

Há um público fiel, que acompanha todas as publicações do seu veículo ou do seu colunista/blogueiro. Mas é minoria. A maioria busca as notícias através das redes sociais. Mais que isso, através de seus grupos de afinidade. E, neles, há os micro-formadores de opinião que, em geral, se impõem pelas posições radicais, pelo patrulhamento e pelo maniqueísmo.

Cada artigo trazido para o grupo não é mais um pedaço de uma forma mais ampla de raciocínio do autor, mas um universo em si. A partir de um artigo, pratica-se o exercício mais em voga nas redes: o opinionismo desvairado. Haverá uma espécie de festival, de concurso para a frase curta de maior impacto, a condenação mais vibrante.

Confesso que esse universo das manadas sempre me irritou, mas sempre me fascinou, também, tentando entender os mecanismos que fazem um grupo grande acompanhar o boi condutor e cometer grosserias que, em geral, não cometeriam isoladamente.

Um dos personagens mais frequentes é o insuflador de linchamentos, que se esconde atrás da turba.

O processo é interessante.

Traz-se o tema para o grupo: foi racista, não foi racista, teve intenção, não teve. Há um  período rápido de formação de consenso, que determinará se o grupo se transformará em turba linchadora ou adiará para um outro tema.

O agente insuflador atua nesse momento. Falta-lhe coragem para comandar os linchamentos. Essa tarefa fica para indivíduos mais inexperientes e estouvados. Então ele atua de forma dissimulada, longe dos olhares do alvo.

Passei por dois momentos desses, nos quais os métodos do agente provocador ficaram nítidos.

Uma, em uma perrenga com feministas, depois que publicamos um post com um título provocativo, falando em “feminazi”. Não adiantou explicar que jamais tinha lido sobre aquele termo, que julgava ser um vocábulo italiano ou coisa do gênero.

Seguiu-se um período de intenso linchamento. O agente provocador, no episódio, era um tal de Idelber, que dava aulas em uma Universidade no sul dos Estados Unidos e foi um dos pioneiros da blogosfera brasileira, onde firmou imagem como militante de esquerda e defensor das causas feministas.

Idelber tinha um histórico amplo de assédio sexual contra mulheres que se encantavam com sua reputação de esquerdista e feminista. Costumava entrar pelo MSN com um pseudônimo, de Erik, com símbolo fálico no lugar da foto, acossando as meninas. E se gabava de ter uma página na Internet com fotos de todas as mulheres casadas que ele supostamente teria seduzido.

Certa vez, Idelber foi convidado para um debate com mulheres da Marcha Mundial das Mulheres em um blog de esquerda. E recusou, por considera-las de baixo nível – eram mulheres operárias – não estando à sua altura.

É interessante analisar esse caso, à luz de casos maiores como o do produtor de Hollywood Harvey Weisntein. Quem sabia das taras de Ildeber, retinha a informação porque havia uma imagem consolidada e poderia prejudicar quem investisse contra ele. Poderia ser taxado de traidor do grupo, de agente da direita.

O final da história é conhecido. Idelber acabou denunciado na sua Universidade por assédio sexual. Rompida a barreira, as vítimas brasileiras ganharam coragem para relatar os abusos dos quais foram alvo. E as próprias feministas cuidaram de liquidar com o que restou de sua imagem. Agora, ele tenta refazer seu blog. Mas com discurso de direita.

Nessa rodada, em torno do tema Waack, deu para identificar personagens similares – embora sem a escatologia do velho Idelber. Como Antônio Luiz Costa, jornalista internacional, botando lenha na fogueira em um grupo de Twitter, cumprindo esse papel de estimular o ódio sem se expor. Alguém, que não gostou dos ataques pelas costas, incluiu meu nome no grupo e pude acompanhar, ao vivo e em cores, através da reconstituição dos diálogos, como se dá esse processo de construção da unanimidade e do ódio.

De qualquer forma, vão aí apenas relatos que testemunhei para ajudar em algum futuro estudo sobre o fenômeno do efeito-manada nas redes sociais, assim como do desenho dos diversos atores que atuam nesse processo.

Abaixo, a relação de matérias sobre o caso Waack publicadas no GGN:

O caso Waack

William Waack no corredor polonês da mídia

O artigo que deflagrou a campanha, mostrando alguns episódios em que Waack se comportou de maneira decente.

O caso Waack e a invasão do mundo do trabalho”.

Mostra como abre-se um precedente para demissões por delitos de opinião, ainda que feitos em ambiente privado. Adivinhe quem serão os maiores alvos?

Recentemente um repórter da Folha foi demitido por opiniões esparsas em seu Facebook, contra o impeachment. E não resultou em campanha alguma. Porque os que estimulam essas campanhas querem palco e plateia que só se obtem com alvos conhecidos.

“Globo despacha William Waack para tirar a lama das próprias mãos, por Wilson Ferreira

Um artigo de Wilson pondo os pingos nos iis sobre o papel da Globo.

E mais uma série de artigos discutindo ângulos complexos da questão, enriquecendo o debate, tirando do mero maniqueísmo.

A “questão Waack”, por Eduardo Ramos

E se William Waack fosse petista?, por Sergio Saraiva

Somos todos William Waack, por Rafael Costa

As reações desiguais do caso Waack e da tragédia do reitor, por José Augusto Ribeiro

LUIS NASSIF” JORNAL GGN” ( BRASIL)
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