O LAVA JATO PAULISTA DA LOIRA QUE É ARROZ DE FESTA NA MÍDIA

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Não começou bem a história da Lava Jato paulista.

Resume-se à transferência, para São Paulo, do desmembramento de algumas denúncias analisadas pelo STF (Supremo Tribunal Federal), contra réus que não disponham de foro privilegiado. De imediato, ganhou a cara da procuradora Thameia Danellon, lotada em São Paulo, apresentada como a chefe da Lava Jato paulista.

Pelos primeiros movimentos, Thameia representa a face mais comprometedora da Lava Jato.

​É ativista política, conforme demonstrou participando ativamente das convocações do MBL (Movimento Brasil Livre) a favor do impeachment. Aliás, é sintomático o fato de terem sido abertas representações contra procuradores que participaram de atos contra o impeachment, e nada ter sido feito contra os que participaram ostensivamente dos atos a favor. Mas, enfim, esta é a cara do MPF.

Em São Paulo, Thameia transformou-se em figura fácil de programas nitidamente partidários.

Em participação recente no Roda Viva, a procuradora expôs todo o Ministério Público, ao receber lições de direito de um jornalista. Sua reação foi ir ao programa da notória Joyce Hasselman, para poder distribuir afirmações taxativas sem risco de ser questionada, ocasião em que atacou o STF (Supremo Tribunal Federal), apontando-o como risco à Lava Jato.

No programa Pânico, da Jovem Pan, ela se permite criticar o hermetismo dos Ministros do Supremo, ou, como diz o apresentador do programa, “dos veinhos que ficam votando”.

Nesses tempos de Lava Jato, o Ministério Público Federal foi afetado de várias maneiras.

Primeiro, o jogo político, no qual os principais lances eram casados com eventos políticos. Depois, o protagonismo indesculpável de procuradores, se colocando como heróis nacionais e se apropriando (inclusive monetariamente, através de palestras) dos benefícios de uma investigação que era mérito das prerrogativas constitucionais do MPF. Some-se a atuação política indevida, com pregações em redes sociais, rádios e TVs. Finalmente, o vazamento escandaloso de informações visando conquistar espaço junto aos veículos de comunicação.

Com exceção dos vazamentos – porque, a rigor, não há ainda o que ser vazado – a procuradora Thameia simboliza todos os vícios desse MPF, o salvacionismo, o ativismo político, a figura fácil em programas de rádio e TV.

É cautelosa apenas nos elogios aos seus chefes presentes e futuros. É significativa a maneira como elogia o chefe que sai, Rodrigo Janot, e, mais ainda, a chefe que entra, Raquel Dodge.

Nos elogios ou nas críticas denota um tipo de personagem público que se pretendia superado depois dos intocáveis de Curitiba, com suas conduções coercitivas espetaculosas, divulgação de conversas íntimas, imposição de humilhações públicas a pessoas e um facciosismo desmoralizante para o MPF. Mais uma vez se verá os episódios canhestros de um MPF a reboque dos MBLs da vida.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

JOESLEY BATISTA: ” 67 DIAS E 67 NOITES DE UMA DELAÇÃO”

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Dezessete de maio de 2017, aniversário de 12 anos de um dos meus filhos -que deixaria a escola e sairia do país a meu pedido-, foi também o dia do meu renascimento. Senti-me um novo ser humano, com valores, entendimento e coragem para romper com elos inimagináveis da corrupção praticada pelas maiores autoridades do nosso país.

Em vez de comemorar seu aniversário, minha filha juntou-se a milhões de brasileiros que tomavam conhecimento de episódios de embrulhar o estômago. Naquele dia vazou para a imprensa o conteúdo do acordo de colaboração premiada que havíamos assinado com a Procuradoria-Geral da República. Confesso que minha reação foi de medo, preocupação e angústia.

Afinal, uma semana antes estivera em audiência no Supremo Tribunal Federal para cumprir os ritos necessários à homologação do acordo. Era essa a notícia que eu estava ansiosamente aguardando, não a do súbito vazamento.

Desde então, vivo num turbilhão para o qual são arrastadas minha família, meus amigos e funcionários.

Imagens minhas e da minha família embarcando num avião, tiradas do circuito interno do Aeroporto Internacional de Guarulhos, foram exibidas na TV, como se estivéssemos fugindo. Um completo absurdo.

Políticos, que até então se beneficiavam dos recursos da J&F para suas campanhas eleitorais, passaram a me criticar, lançando mão de mentiras. Disseram, por exemplo, que, depois da delação, eu estaria flanando livre e solto pela Quinta Avenida, quando, na verdade, nem em Nova York eu estava.

Para proteger a integridade física da minha família, decidi ir para uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos, longe da curiosidade alheia. Nessa altura, porém, eu já havia sido transformado no inimigo público número um, e nada do que eu falasse mereceria crédito.

Minha exata localização nem seria assim tão relevante, a não ser por revelar uma estrutura armada com o objetivo de transformar a realidade complexa, plena de nuances, num maniqueísmo primário, em que eu deveria ser o mal para que outros pudessem ser o bem.

Mentiras foram alardeadas em série. Mentiram que durante esse período eu teria jantado no luxuoso restaurante Nello, em Nova York; mentiram que eu teria viajado para Mônaco a fim de assistir ao GP de Fórmula 1; mentiram que eu teria fugido com meu barco.

A lista das inverdades não parou por aí. Mentiram que eu estaria protegendo o ex-presidente Lula; mentiram que eu seria o responsável pelo vazamento do áudio para imprensa para ganhar milhões com especulações financeiras; mentiram que eu teria editado as gravações.

Por fim, a maior das mistificações: eu teria estragado a recuperação da economia brasileira, como se ela fosse frágil a ponto de ter que baixar a cabeça para políticos corruptos.

De uma hora para outra, passei de maior produtor de proteína animal do mundo, de presidente do maior grupo empresarial privado brasileiro, a “notório falastrão”, “bandido confesso”, “sujeito bisonho” e tantas outras expressões desrespeitosas.

Venderam uma imagem perfeita: “Empresário irresponsável e aproveitador toca fogo no país, rouba milhões e vai curtir a vida no exterior”.

A única verdade que sei é que, desde aquele 17 de maio, estou focado na segurança de minha família e na saúde financeira das empresas, para continuar garantindo os 270 mil empregos que elas geram.

Por isso, demos início a um agressivo plano de desinvestimento que tem tido considerável êxito, o que demonstra a qualidade da equipe e das empresas que administramos.

De volta a São Paulo, onde moro com minha mulher e meus filhos, vejo na imprensa políticos me achincalhando no mesmo discurso em que tentam barrar o que chamam de “abuso de autoridade”.

Eles estão em modo de negação. Não os julgo. Sei o que é isso. Antes de me decidir pela colaboração premiada, eu também fazia o mesmo. Achava que estava convencendo os outros, mas na realidade enganava a mim mesmo, traía a minha história, não honrava o passado de trabalho da minha família.

Poucos mencionam a multa de R$ 10,3 bilhões que pagaremos, como resultante do nosso acordo de leniência. Essa obrigação servirá para que nossas próximas gerações jamais se esqueçam dessa lição do que não fazer.
Não tenho dúvida de que esse acordo pagará com sobra possíveis danos à sociedade brasileira.

Hoje, depois de 67 dias e 67 noites da divulgação da delação, resolvi escrever este artigo, não para me vitimar -o que jamais fiz-, mas para acabar com mentiras e folclores e dizer que sou feito de carne e osso. E entregar ao tempo a missão de revelar a razão.

JOESLEY BATISTA ” FOLHA DE S.PAULO” ( BRASIL)

JOESLEY MENDONÇA BATISTA, empresário, é dono do grupo J&F

 

A LUTA DO MONOPÓLIO DE NOTÍCIAS CONTRA O GOOGLE E O FACEBOOK POR FORMAREM DUOPÓLIOS

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Empresas de notícias estão entrando em conflito com Google e Facebook

Google e Facebook formaram um duopólio da era digital

 

Parece um segmento do John Oliver, não é? Como todos sabemos, ao checar nossos aplicativos de notícias favoritos, a linha tênue entre sátira e notícias quase desapareceu.

[John Oliver é 1 comediante britânico que tem 1 programa semanal de sátira política transmitido pela HBO].

Na semana passada, nos amigáveis confins da seção de opinião do Wall Street Journal, a iniciativa da News Media Alliance de ganhar isenções antitruste acendeu vários pavios. O presidente da Media Alliance, David Chavern (leia minha entrevista com ele aqui), apresentou um ponto singular: os jornais precisam de proteção legal para que possam negociar coletivamente com Google e Facebook, o duopólio dominante da era digital.

Em seu artigo de opinião, “Como o antitruste enfraquece a liberdade de imprensa“, Chavern convoca o Congresso a providenciar um ambiente seguro –essencialmente uma exceção– de leis opostas a trustes para que o Departamento de Justiça não acuse o grupo dos jornais diários de atividades ilegais.

A proposta reascendeu uma coleção de apelos, costumes, argumentos que já têm mais de 20 anos de idade, e até uma ou duas análises razoáveis. Na proposta da Alliance, há elementos de verdade, aparentemente exagerados na arrogância política e um anúncio que deixou fácil categorizar os donos de jornais como irmãos de outra (analógica) época. A campanha da Alliance por um “porto seguro” falhou em alcançar a urgência existencial do “Democracia morre na escuridão“, de The Washington Post, mas ambos expressam um medo similar.

As manchetes baseadas na proposta são confusas. Inflam o negócio real de busca de audiência que o Google e o Facebook realmente produzem. Ao mesmo tempo, confundem o poder de “distribuição” com a maior ênfase sobre o dinheiro do nosso tempo: o domínio crescente da publicidade digital pelas duas empresas.

O problema fundamental aqui paira por detrás do surpreendente declínio da indústria de jornais das Américas e da Europa. Esse setor está faturando US$ 30 bilhões a menos do que uma década atrás. O lucro do Google e do Facebook agora passa dos US$ 30 bilhões anuais. A reviravolta é chocante.

É por isso que esse tópico –a relação tripartite entre as plataformas, companhias de notícias e nós– vai um pouco mais fundo. Considere este texto a seguir o seu guia para as últimas guerras travadas entre Google, Facebook e os jornais.

“O FUTURO DA APURAÇÃO DE NOTÍCIAS E, SIM, DA DEMOCRACIA, DEPENDE DO RESULTADO DESSA DISPUTA”

Esperamos que não. Seria puro delírio esperar que o Congresso [o dos EUA] e esse presidente [Donald Trump] salvem a indústria do jornalismo.

A editora-executiva do Sacramento Bee, Joyce Terhaar, escreveu a perturbadora frase acima em uma coluna na 5ª feira (13.jul.2017). Seu espírito é encorajador, especialmente no momento em que sua empresa-mãe McClatchy tenta novamente se reformular para alcançar o sucesso digital.

Mas jornais diários não podem se dar ao luxo de colocar seus futuros nas mãos de outros –especialmente de um grupo de políticos que fez tão pouco para defender o papel da imprensa livre enquanto o presidente a ataca.

A News Media Alliance tem 2.000 integrantes, mas é em grande parte uma associação comercial de jornais diários, que foi reformulada e renomeada em 2016. Esse grupo de fato amaria algum benefício da legislação antitruste. Mas seu objetivo principal é uma maior atenção do público para o papel da imprensa e suas plataformas em uma sociedade livre. Se o subcomitê do Senado para Antitruste, Políticas Competitivas e Direitos do Consumidor e o subcomitê da Câmara para Reformas Regulatórias, Comércio e Lei Antitruste realizarem audiências sobre a proposta no 2º semestre, já seria uma grande vitória.

A ideia: jogar uma luz sobre o domínio do Google e do Facebook (e talvez Apple e Amazon) no que diz respeito aos negócios da indústria da mídia de forma abrangente. Isso seria uma grande vitória. Forneceria também um trunfo aos publishers. Algo que poderiam usar enquanto roem as cenouras das parcerias já existentes e em discussão com todos os grandes atores dessas plataformas.

2) ESCOLHA SUA PORCENTAGEM DE DOR

Cada número envolvido no debate conta uma parte da história. A Alliance cita a estatística de que “71% dos US$ 19,6 bilhões gastos [em publicidade digital] no 1º trimestre deste ano” foram para o Google e o Facebook. E, sim, na verdade a participação dos 2 na publicidade digital –que agora é a mais volumosa nos Estados Unidos, ultrapassando a TV– está crescendo.

No ano passado, Jason Kint do Digital Content Next (uma associação de comércio para publicações de notícias digitais premium) apontou que, no 3º trimestre de 2016, apenas 1% do crescimento da publicidade digital foi para companhias que não eram o Facebook ou o Google. O número totalizou 10% para todo o ano de 2016. Ou seja, todos os demais vendedores de publicidade conseguiram arrecadar US$ 1,4 bilhões, enquanto Google e Facebook arrecadaram juntos US$ 11,4 bilhões com o crescimento de publicidade.

Como um observador do panorama me sugeriu nesta semana, “apenas espere até que o Google e o Facebook arrecadem 101% do crescimento“. Quando se consideram as tendências, parece uma realidade possível –e apenas reafirmaria o duopólio.

3) NÃO GOSTO DESSAS PORCENTAGENS. DÊ-ME ALGUMAS MENORES

Em uma enquete entre seus integrantes, o Digital Content Next de Kint descobriu que, em média, publicações atribuíam 14% de seu lucro digital a dinheiro ganho pelas plataformas.

“O que entendo desse dado é que não havia influências econômicas suficientes vindas dessas companhias para conduzir decisões de publishers“, diz Kint. “Eles precisam conseguir mais dinheiro, especialmente se seu conteúdo está indo ao vivo para estas plataformas“.

4) O QUÃO SÉRIO É A “PLATAFORMATITI“?

Você se lembra dessa epidemia? A impressão é que começou em 2015 e se espalhou de forma agressiva em 2016. Plataformas eram os buracos negros sugadores de leitores da época. Pareciam impossíveis de serem contidas.

O medo naquele tempo era de que todos gastariam seu tempo em plataformas. O sites de notícias deveriam então desistir e apenas postar seu conteúdo onde os leitores pareciam estar se fixando.

Era uma ideia ingênua naquela época. E é uma ideia ingênua agora. Uma grande razão é o retorno de leitores. É consenso entre quase todos na indústria de jornais tradicionais que suas esperanças para atingir um futuro digital que valha a pena deve ser concentrado nas assinaturas de leitores do tipo all-access (digital + impresso). É nesse parâmetro que estão as estratégias de negócios dos veículos nacionais/globais (New York Times, Financial Times, Wall Street Journal e, no longo prazo, Washington Post). Mas é também onde baseiam seus modelos de negócio os regionais diários que são inteligentes, de Boston a Minneapolis, de Dallas a Seattle.

Este pensamento levou cada um deles a validar, estender e proteger sua própria relação com os consumidores, para quem voltou-se a atribuir a designação antiga de “assinantes” (abandonando o termo “usuário”). Você não pode ceder um relacionamento pago a uma plataforma. A “tarefa nº 1” em audiência e desenvolvimento de assinantes é esta: construa e alimente relacionamentos no site e apps com consumidores pagantes, que entregam (ou logo entregarão), mais da metade do retorno do seu negócio jornalístico.

Consequentemente, todas essas companhias –e muitas outras (Hearst, dentre outras, recentemente foi convertida)– tentaram se concentrar em transformar a plataformatiti em uma condição crônica mas controlável, ao invés de uma deficiência aguda.

O tremendo alcance de audiência do Facebook e do Google é algo a ser administrado de maneira habilidosa, mas não algo que guiará o sucesso de seu retorno fundamental de estratégias. Cada companhia fez sua própria aritmética, mas a maioria chegou a algo não muito longe dos 14% do Digital Content Next.

A conclusão é que estamos vendo uma variedade maior de formas de publicação em muitas empresas de mídia. Esses veículos estão transferindo recursos de um tipo de distribuição –que usa mão de obra de maneira intensiva– para outro modelo de geração de receita mais vantajoso. Por exemplo, a criação de newsletters e desenvolvimento de podcasts.

Nós pudemos observar um espectro de diferentes abordagens sobre como publishers trataram suas próprias plataformatiti. O Washington Post –por causa de sua estratégia de ser onipresente– ainda está imerso no Facebook e se envolve mais profundamente com a Apple News, por exemplo. O Wall Street Journal e o Financial Times, com paywalls mais rígidos, analisam seu envolvimento em plataformas com mais cuidado. O NYTimes equilibra a conversão de assinantes e o crescimento do seu alcance de maneira geral.

Essas são as melhores estratégias práticas desenhadas pelas companhias mais estruturadas. Muitas das publicações regionais –aquelas representadas pela Media Alliance– observam e parecem confusas com o contexto das plataformas e como elas funcionam. Os grandes jornais não discutem a noção de que Google e Facebook formaram de maneira efetiva um duopólio de publicidade digital, mas estão mais concentrados em seu próprio negócio. E, em particular, estimulam o seus colegas da imprensa regional a fazer o mesmo.

5) ESTAMOS FALANDO SOBRE O CONSUMIDOR DE NOTÍCIAS –OU SOBRE A INDÚSTRIA JORNALÍSTICA?

Quando entrevistei Chaver, da Alliance, na semana passada, fui surpreendido ao descobrir que a associação não incluiu outros grandes provedores de notícias como BuzzFeed ou Vox, ou emissoras de televisão em sua reclamação. O que a Alliance fez foi circunscrever o termo “notícias” aos jornais –e à ameaça que a dominação do mercado por Google e Facebook representam para quem está no negócio de produzir notícias.

Diante disso, claro, abriu-se espaço para o ridículo e a falta de noção –Mathew Ingram levou boa vantagem. Mas o problema é mais profundo. Qualquer estrago que o duopólio e sua dominação do mercado possa causar é sentido pelos consumidores de notícias –e por todos os que produzem notícias. Isso inclui as emissoras e os veículos jornalísticos nativos digitais.

Ao circunscrever essa iniciativa apenas como um plano de apoio à indústria de jornais, a Alliance reduz consideravelmente o argumento real de que consumidores de notícias norte-americanos e cidadãos estão sendo feridos.

Num universo de cerca de 1.350 jornais diários nos EUA, 90% deles pertencem a conglomerados. Três desses conglomerados são donos de ¼ de todos os veículos diários, e 2 a cada 3 pertencem ou são administrados por companhias de patrimônio privado que visam a maximização de lucro. Uma minoria tem a combinação de reinvestimento de capital, vontade e a inteligência estratégica para seguir em frente.

6) O COPO ESTÁ MEIO CHEIO, OU 15/16 VAZIO?

É esquisito, mas a indústria de jornais diários parecia estar em desacordo consigo mesma faltando um ou dois dias para o anúncio da Media Alliance.

Rusty Coats, diretor executivo do Local Media Consortium (LMC) [Consórcio de Media Local], critica chamando o movimento de protecionismo descabido, argumentando que David Chavern não falou pela indústria e que os membros do conselho da Media Alliance pareciam não entender que suas próprias companhias já estavam em parcerias com o Google e o Facebook.

Para aqueles que não conhecem o LMC, essa entidade é formada por diversas companhias de mídia locais que estão na Media Alliance. É uma companhia de otimização de publicidade digital, que usa a tecnologia (incluindo parcerias com o Google) para maximizar taxas no inventário não-premium que não é vendido de sites de mídia local.

[inventário é 1 termo usado na indústria de mídia digital. Trata-se de todas as páginas nas quais podem ser colocados anúncios. Várias empresas de publicidade digital, como o LMC, fazem acordos com sites de notícias para colocar anúncios automaticamente em páginas que de outra forma ficariam vazias e sem publicidade]

Coats me disse que em 2016 o LMC ajudou a produzir uma receita total de “mais de US$ 110 milhões” para as suas 1.600 publicações associadas.

Quando dividimos esses US$ 110 milhões entre as centenas de títulos que o LMC representa, vemos que se trata apenas de uma gota no oceano dos US$ 20 bilhões de receita anual da indústria de jornais diários. Coats e seus colegas trabalharam duro e de forma inteligente em seu território. Mas o fato é que os integrantes da News Media Alliance provavelmente olham para algo mais abrangente, preocupados com o declínio da indústria –e acabam considerando o pequeno retorno de receita oferecido pelo LMC com um grande erro dentro do contexto geral.

7) O GOOGLE ESTÁ REALMENTE “IRRITADO” COM A AÇÃO DA MEDIA ALLIANCE?

Ai, ai, ai…

A palavra “irritado” é uma escolha interessante, como relatado por Dylan Byers, da CNN. Mas quais adjetivos poderíamos aplicar para os sentimentos a respeito da destruição no atacado dos jornais locais norte-americanos –mesmo que o estrago não seja um efeito colateral e não algo intencional? Horrível, doloroso, nauseante e assustador.

De qualquer maneira, enquanto parece ser possível personificar o Google ou o Facebook, esta não é a realidade. Um executivo de notícias me disse que “lidamos com 11 diferentes partes do Google, e eles estão apenas agora conseguindo coordenar suas ações“.

Em meio a tantas relações entre plataformas e companhias de notícias, muitas pessoas honestas dessas plataformas fazem o melhor possível para alcançar o bem comum para as duas partes. Mas, de maneira geral, há a incapacidade das empresas de mídia jornalística de entender e lidar com o efeito colateral que está sendo causado por elas próprias. No momento em que a mídia tradicional tenta dar um grande salto, é necessário que também estabeleçam parcerias fortes no mercado de notícias locais que está se transformando.

8) O QUE ELES QUEREM?

David Chavern pode listar 4 ou 5 coisas que companhias de jornais gostariam de ter se pudessem negociar juntas com (ou contra?) o Google e o Facebook. A lista é familiar: dados melhores, no sentido de mais completos. Melhor branding para o conteúdo do jornal nessas plataformas. Ajuda para conseguir mais assinantes digitais. E aí tem o “revenue share” [compartilhamento de retorno nas receitas] –palavras simples que cobrem 20 anos de sofrimento.

Eu pedi a Chavern que ele definisse o que ele quis dizer com”revenue share”.

“Qualquer retorno de publicidade ligado ao nosso conteúdo. Sempre iremos falar sobre como isso é dividido, certo?“, disse ele. “Se for valioso, temos todo o direito de pedir que seja valioso“. Apesar de Chavern ser novo na indústria, tendo saído de seu trabalho da Câmara de Comércio dos EUA por volta de 2 anos atrás, ele utiliza o pensamento incipiente e perpétuo que subsiste na indústria de jornais há duas décadas.

Certamente o Google, ao compilar notícias, extrair valor dessa atividade. Certamente o Facebook ao linkar para infinitas reportagens beneficia-se enormemente.

Do lado deles (Google e Facebook), o argumento é que estão apenas fazendo o que a lei permite –um “uso justo” do conteúdo. E acrescentam, quando pressionados, que “notícias” simplesmente não monetizam tanto assim. O Google diz que notícias representam apenas de 5% a 7% das buscas e que o valor relativo desse tipo de item é baixo comparado ao de outras buscas de algo que pode ser comprável.

Por quase duas décadas, as maiores companhias de notícias conversaram sobre contestar o “uso justo” das plataformas. Nunca haviam pleiteado esse ponto –apesar de termos visto ações agressivas sobre aquele tópico e outros, episodicamente, da União Europeia.

No entanto, a questão do valor do conteúdo de fato serve como a alma do argumento da Media Alliance. Não está errado: claramente, Google, Facebook e outros derivam muito valor do conteúdo das notícias. Sua moeda movimenta o uso; o uso movimenta o hábito. O hábito é monetizado em várias maneiras. Mas podemos colocar um número nisso? Eu fiz essa pergunta a diversas pessoas ligadas ao Google ao longo dos anos e sempre recebi a mesma resposta: “Não, há muitas variáveis“.

Podemos separar um momento para saborear a ironia de a companhia que inventou a hiper-monetização do algoritmo dizer que não consegue saber o valor do conteúdo notícia. O ponto maior aqui é: há um valor, e é um grande valor.

Publicações sabem que não podem negociar efetivamente sozinhas. Também não está certo se têm peso suficiente para negociar coletivamente, no caso de Trump e o Congresso de alguma maneira resolverem conceder esse benefício à mídia tradicional.

Apesar de Jason Kint não considerar muito viável o funcionamento da iniciativa da News Alliance, ele concorda que ela traz à tona a questão básica do domínio.

“Se você não está alcançando o valor justo daqueles snippets [pedaços ou fragmentos de informação] ou o que quer que sejam, então você deveria poder sair do acordo. Você não deveria ser obrigado a fazer negócio com o Google e o Facebook ou qualquer outra companhia para poder sobreviver, e têm sido provado que não há maneira de gerir um negócio de notícias digital sem permitir que o Google coordene as buscas pelo seu site. E é também muito difícil gerir um negócio de assinaturas com o modelo de ‘o 1º clique é gratuito‘”, diz ele.

“E eu argumentaria que é difícil coordenar um negócio futuro sem participar e trabalhar em conjunto com o Facebook… Você não pode não ter uma boa relação com as duas companhias da perspectiva de uma relação de negócios“. É por isso que ouvimos tão poucas críticas públicas de publishers sobre o uso dessas plataformas. “Você acaba com caras como eu que são convenientemente os únicos que podem de fato ser ficar critica do de maneira vigorosa e estridente“, afirma Kint.

Medo, de fato, é uma boa forma de definir a dominação do mercado.

9) O FACEBOOK E O GOOGLE TÊM ALGUMA OBRIGAÇÃO CORPORATIVA OU MORAL PARA FAZER O QUE É CERTO?

Com o projeto “Iniciativa de notícias voltadas à Europa”, o Google colocou um pouco a mão no bolso e também ouviu um pouco o que os publishers tem a dizer. Mas nada do que está sendo realizado é particularmente transformador nem necessariamente para ajudar uma indústria que está indo pelo ralo.

10) O FACEBOOK PODE VENDER ASSINATURAS PARA OS PUBLISHERS?

A News Media Alliance afirmou que quer ajudar a plataforma nas vendas de assinaturas. Essa é uma área que está sendo desenvolvida, segundo o Facebook.

Leia o que Ben Thompson, da Stratechery, dissecou da ação da Alliance nesta questão:

De fato, está é a parte mais ridícula dessa proposta. Uma das questões que Chavern deseja negociar coletivamente com o Facebook e o Google é “melhor modelo para conseguir assinantes”. Em outras palavras, Chavern deseja agregar o Facebook e o Google em um único mercado –de assinaturas–, no qual os jornais possuem um modelo de vendas bastante viável.

É fácil imaginar como isso pode acontecer. As empresas criam promoções para editores e, eventualmente, criam uma carência para as mesmas no futuro. Devido a essa necessidade dos consumidores, os lucros serão postergados. Isso deixará as editoras dependentes, e fará com que elas persigam desesperadamente os números de visualizações das páginas para garantir que consigam os valores de sua receita. Isso soa familiar?

A receita do leitor oferece a única via principal plausível da atual calmaria. Isso faz algum sentido quando pensamos que pequenos editores fariam de tudo para conseguir o sucesso no número de assinaturas online dos grandes veículos (New York Times, Financial Times, Washington Post e Wall Street Journal).

Esses pequenos editores investem em diversas esferas do Facebook para alcançar esse objetivo, na esperança de que pelo menos alguns desses grupos atingidos serão convertidos em assinaturas pagas. Porém, como dito nas entrelinhas por Thompson, a última coisa que deve ser feito com o leitor é tentar inserir o Facebook ou qualquer outra plataforma em uma situação de pagamento.

Tudo o que sabemos sobre o sucesso dos modos de pagamentos dos leitores digitais é baseado em relacionamentos. Uma relação de confiança entre a marca e leitor, que resulta no aumento de assinaturas que presenciamos no ano passado.

É possível que o Facebook ou as demais plataformas pensem em um novo meio de ajudar esses editores a criar vínculos entre as assinaturas e os leitores? Eles podem prover mais dados, mas a este ponto, seria apenas uma fração. Qualquer solução que insira as plataformas em um relacionamento entre as publicações e os leitores deve ser analisada com cautela.

11) SÃO SÓ ASSINATURAS. É A ESSÊNCIA DO FACEBOOK QUE É O PROBLEMA

Kint, do Digital Content Next, apresentou sucintamente.

“A posse de bancos de dados, bons relacionamentos, negociações econômicas e consolidação da marca são as verdadeiras importâncias para as propriedades midiáticas. Essas 3 coisas são as antíteses de como o Facebook potencializou seus negócios até hoje”, disse Kint.

“Eles esmagam a marca e distribuem como o artigo no nível do conteúdo, para que possam commoditizar o valor. Eles possuem todos os dados, e não dão nada destas informações. E eles querem a menor quantidade possível de fricção para maximizar a audiência em publicidade, inventário e dados. Eles odeiam relações de assinaturas. O que está sendo requisitado pelos editores é completamente oposto à atual estratégia do Facebook”.

A relação de alinhamento entre o Google e a Apple apresenta maiores nuances.

O Google percebeu, racionalmente, que o Facebook era a maior ameaça à suas estratégias publicitárias. A rede social inovou a AMP, de modo que acelerou consideravelmente a entrega de conteúdos na internet aberta. Isso foi um “empurrão” para novos editores, alguns dos quais relataram aumento de mais de dois dígitos no número de acessos, devido ao carregamento mais rápido das páginas. Por outro lado, a política do “1º clique gratuito” do Google, a qual estabelece que sites de assinatura não acessíveis ofereçam um ou mais acessos gratuitos aos visitantes que usam a pesquisa do Google, tem sido 1 ponto crítico. O Wall Street Journal retirou-se desse acordo no início de 2017.

A Apple irrita os editores com a divisão de receita generosa nas assinaturas vendidas através do iTunes que, no entanto, compartilham poucos dados dos leitores. Os editores gostam do fato de a Apple não competir com eles nas vendas de anúncios.

12) EXISTE ANTITRUSTE… ENTÃO, EXISTE ANTITRUSTE

Enquanto a indústria jornalística procura uma isenção ao antitruste, o próprio antitruste começa a incomodar os proprietários da mídia.

A atual lei dos Estados Unidos, geralmente, proíbe uma empresa de possuir 2 periódicos em um mesmo mercado. Em Chicago, neste mês (jul.), a companhia jornalística Tronc foi impedida de oferecer uma oferta vitoriosa ao Sun-Times por já possuir o Chicago Tribune. O ocorrido seguiu uma linha parecida com a ação do Departamento de Justiça dos Estados Unidos no ano passado, que impediu a Tronc de comprar o Orange County Register devido à política antitruste.

As indústrias jornalística e de radiofusão se uniram no ano passado, logo após a vitória de Donald Trump, para pedir à Comissão Federal de Comunicações o fim das rigorosas regras de empresas com atividade comercial relacionada. Essas regras da instituição proíbem amplamente a propriedade conjunta de uma grande emissora de televisão e um grande jornal em um mesmo mercado.

O que significa “domínio de mercado” com a substituição digital por empresas de notícias analógicas e com a Era Trump?

“Pensamos que ambos (2 periódicos sobre a política antitruste e a atividade comercial relacionada), são ilógicos e antiquados neste momento“, disse Mike Klingensmith, presidente do conselho da Alliance e editor do Star Tribune. “Essa iniciativa sobre o duopólio ajuda a criar 1 debate sobre esse assunto”.

“Qual é a conexão?“, perguntei.

“Se você pode permitir que duas empresas controlem 70% da publicidade digital (nos Estados Unidos como um todo), como você pode proibir que 2 jornais controlem 15% dos anúncios em um metrô“?

Durante duas décadas, vimos que a tecnologia analógica proveniente do século XX parece meio boba em comparação à surgimento digital do século XXI. Essa discrepância resultante foi suficientemente ampla para conduzir uma “caravana de anúncios digitais, quase infinita de riquezas”. As empresas que “jogam limpo”, como a Google e seu método de pesquisa e o Facebook com a interação social, estiveram livres para contratar os melhores advogados e se livrar de desafios na justiça.

Perder-se em um redemoinho de conversa sobre antitruste é um reconhecimento dos valores sociais para o negocio local e nacional de notícias. Isso é o que realmente está em jogo. No entanto, nesse exato momento, os políticos e analistas de mercado ainda não começaram a pensar em resoluções para isso.

13) SE ELES SE CHAMAM “GOOGLE NEWS” E FACEBOOK NEWS FEED”, ISSO QUER DIZER QUE É APRESENTAM NOTÍCIAS?

A cumplicidade do Facebook em uma época de ignorância eleitoral e informações omitidas não deveria ser esquecida. Mark Zuckerberg, e o Facebook, desejaram tornar-se o centro da vida dos seus usuários e fingir que as horas gastas mensalmente em “notícias” realmente fariam a diferença na vida de alguém. Até quando uma das promessas da Google Digital News Initiative de criar “jornalismo” por meio da inteligência artificiaI, o Google e o Facebook não enfrentaram a verdade como acontece com uma empresa de notícias.

Essas empresas são distribuidoras de informações que poderiam criar um mundo melhor se não fingissem ser fontes de notícia. Ambas estão em uma posição que poderia desenhar uma linha forte para seus usuários. Eles podem lembrar seus usuários que a verdadeira notícia é criada por verdadeiros jornalistas –e incentivar o apoio a tais profissionais, sem entrar no meio e no fluxo de retorno.

14) PODE UM ANTIGO MONOPÓLIO AGORA CRITICAR UM DUOPÓLIO?

Jornais já foram monopólios e dominaram as cidades norte-americanas, colocando tarifas publicitárias altas para todos, desde grandes lojas de departamento até pequenas mercearias que colocavam anúncios classificados (pagos!) nas suas páginas.

Agora fragilizados, esses jornais gritam para o Congresso: “Duopólio!”.

Isso é justo? Provavelmente não. É apenas um daqueles acidentes da história que vemos acumulados ao longo da estrada. A forma como juntamos tudo isso pode ser atraente para os historiadores, mas o trabalho a frente de todos nós é de esclarecer tudo isso.
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*Ken Doctor é analista da indústria de notícias e autor do livro “Newsonomics: 12 novas tendências que moldarão como você recebe notícias” (St. Martin’s Press). Também coordena o site do livro, newsonomics.com. É um analista para a firma de pesquisa Outsell, e, regularmente, consultor e palestrante. Passou 21 anos com a Knight Ridder em diversos cargos, incluindo editor administrativo do St. Paul Pioneer Press e vice-presidente do Knight Ridder Digital. Leia este texto original, em inglês.

KEN DOCTOR ” NIEMAN LAB” ( EUA) / ” PODER 360″ ( BRASIL)
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O Poder360 tem uma parceria com o Nieman Lab para publicar semanalmente no Brasil os textos desse centro de estudos da Fundação Nieman, de Harvard. Para ler todos os artigos do Nieman Lab já traduzidos pelo Poder360, clique aqui.

 

MARCOS VALÉRIO DESVENDA A CORRUPÇÃO DESDE FHC

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O uso de delação premiada pela Polícia Federal, como o acordo com Marcos Valério já submetido ao Supremo, torna-se mais ácido para a contrariada Lava Jato com um tempero incluído nas denúncias prometidas.

O período que Valério se dispôs a abranger não começa, como na Lava Jato, com o governo Lula. Ele oferece a revelação do sistema que financiou, por meio de suas empresas de publicidade, desvios financeiros desde o governo de Fernando Henrique. O contrário do que a Lava Jato admitiu aos seus delatores.

Os temas de Valério não incluem as grandes compras e obras da Petrobras, mas nem por isso negócios da estatal ficam de fora. Grande parte da atividade ilícita das agências DNA e SMP&B, com envolvimento de partidos e políticos, valia-se de programas de publicidade e marketing de estatais, nos quais a Petrobras há muito tem proeminência.

Dessas atividades é inesquecível, por exemplo, a pretendida mudança de nome da Petrobras, para Petrobrax. Só a contratação para troca da marca em todos os seus usos no país inteiro, daria mais um dos escândalos típicos da Lava Jato. Se, incumbida de desvendar as ilicitudes na Petrobras, a força-tarefa curitibana não restringisse a tarefa em vez da força. Mas o xis do problema não foi no governo Lula. Era um preparativo, retirando do nome o sentimentalismo nacionalista, para a venda da empresa.

Mais de um delator da Lava Jato referiu-se ao período anterior a 2003. Pedro Barusco citou com precisão negócios ilícitos na Petrobras já em 1998. Não entraram, porém, na zona de denúncia e acusação da Lava Jato. Quando lá apareceu, inesperada, uma menção a algo “no governo Fernando Henrique”, ficou também registrado o brusco e definitivo “isso não interessa!”.

Nessa linha, não é menos ilustrativa a recusa da Procuradoria da República em Minas e da Procuradoria-Geral, de Rodrigo Janot, ao acordo de delação proposto por Marcos Valério, e por fim aceito na PF. Também em Minas, o “mensalão” do PSDB, ocorrido quatro anos do “mensalão petista”, ainda não tem seu processo concluído: desde o fato a ser julgado, são 19 anos. E 12 desde as condenações dos acusados pelo “mensalão petista”.

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JUSTIÇA?

Irene Ravache lançou o protesto (“O Globo”): “Senhores da Justiça, não aceitamos isso!”. Anna Carolina Jatobá, coautora do assassinato de Isabela Nardoni, jogada de um sexto andar aos 5 anos, passa da cadeia para o regime semiaberto. Cumpridos 9 anos da condenação a 26 anos e 8 meses, apenas deverá dormir na prisão.

A juíza Sueli Zeraik Armani, da 1ª Vara de Execuções Criminais de Taubaté, pode ter concedido o inscrito em lei. Mesmo assim, o fez baseada em perícia que diz ser “nulo” o risco de outro crime de Anna Carolina Jatobá.

Ninguém sabe o suficiente do estado psíquico e das circunstâncias futuras de um criminoso para reconhecer-lhe tamanha imunidade. Não foi feita perícia: houve exercício inválido de adivinhação. Não houve decisão judicial: foi a concessão de um privilégio sem Justiça.

Crimes contra crianças são terrivelmente perturbadores, sempre. Certas decisões judiciais são tristemente perturbadoras, em vão.

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A SOLUÇÃO

O argumento de Gilmar Mendes, contra o atual direito do interlocutor de gravar a própria conversa, é sucinto: “Vamos ter que analisar a questão novamente [o direito de gravação, confirmado pelo STF]. Nova composição [do Supremo], novo quadro”. O produto da reflexão suprema é, portanto, tornar temporárias todas as decisões de tribunais e do Congresso.

A cada quatro anos a nova composição do Congresso reexaminaria toda a legislação. A cada novo ministro no Supremo, reexame das decisões para possível condenação dos absolvidos e derrota dos antes vencedores.

Dizem que os gênios são incompreendidos: é natural que Gilmar reclame de críticas. Há, no entanto, maneiras menos trabalhosas, embora menos lúcidas, de favorecer o Temer gravado por Joesley Batista.

JANIO DE FREITAS ” FOLHA DE S>PAULO” ( BRASIL)

PROFESSOR DE UNIVERSIDADE EM QUE MORO SE FORMOU É DE OPINIÃO QUE SUA FORMAÇÃO DEVE SER INVESTIGADA

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Marcos César Danhoni Neves, professor e pesquisador da Universidade Estadual de Maringá, publicou artigo na Revista Fórum alertando para a formação do juiz Sergio Moro. Segundo Neves, Moro teria concluído mestrado e doutorado em prazo inferior ao padrão. Além disso, critica as teorias de Deltan Dallagnol no caso triplex.

Neste sábado, Veja publicou reportagem com Rosângelo Moro, esposa do juiz de Curitiba, contando que conheceu a estrela da Lava Jato quando ele tinha “20 e poucos anos”, mas já era juiz e dava aulas de Direito em uma universidade.

Eis o seu relato:

Sou professor titular de Física numa universidade pública (Universidade Estadual de Maringá-UEM) desde 2001 e docente e pesquisador há quase 30 anos. Sou especialista em história e epistemologia da ciência, educação científica, além de processos de ensino-aprendizagem e análise de discursos.

Orientei mais de 250 alunos de graduação, especialização, mestrado, doutorado e pós-doutorado, além de professores in-service. Conto tudo isso, como preâmbulo, não para me gabar, mas para salientar que li milhares de páginas de alunos brilhantes, medianos e regulares em suas argumentações de pesquisa.

Dito isso, passo a analisar duas pessoas que compõem o imaginário mítico-heróico de nossa contemporaneidade nacional: Sérgio Moro e Deltan Dallagnol.

Em relação ao primeiro, Moro, trabalhei ativamente para impedir, junto com um coletivo de outros colegas, para que não recebesse o título de Doutor honoris causa pela Universidade Estadual de Maringá.

Moro tem um currículo péssimo: uma página no sistema Lattes (do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico ligado ao extinto MCT – Ministério da Ciência e Tecnologia). Lista somente 4 livros e 5 artigos publicados.

Mesmo sua formação acadêmica é estranha: mestrado e doutorado obtidos em três anos. Isso precisaria ser investigado, pois a formação mínima regulada pela CAPES-MEC (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Ministério da Educação) é de 24 meses para Mestrado e 48 meses para o Doutorado.

Significa que “algo” ocorreu nessa formação apressada.. Que “algo” é esse, é necessário apurar com rigor jurídico.

Além de analisar a vida acadêmica de Moro para impedir que ele recebesse um título que não merecia, analisei também um trabalho seminal que ele traduziu: “O uso de um criminoso como testemunha: um problema especial”, de Stephen S. Trott.

Mostrei que Moro não entendeu nada do que traduziu sobre delação premiada e não seguiu nada das cautelas apresentadas pelos casos daquele artigo.

Se seguirmos o texto de mais de 200 páginas da condenação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e guiando-me pela minha experiência em pesquisa qualitativa, análise de discurso e fenomenologia, notamos claramente que parte significativa do texto consiste em Moro tentar apagar suas digitais, sem sucesso, ao desdizer que agiu com imparcialidade.

Nestas páginas robustas lemos uma declaração clara de culpa: Moro considera a parte da defesa de Lula em menos de 1% do texto total! E dos mais de 900 parágrafos, somente nos cinco finais alinhava sua denúncia e sentença sem provas baseada num misto frankensteiniano de “explanacionismo” (uma “doutrina” jurídica personalíssima criada por Deltan Dallagnol) e “teoria do domínio do fato”, ou seja, sentença exarada sobre ilações, somente.

Aqui uso a minha experiência como professor e pesquisador: quando um estudante escreve um texto (TCC, monografia, dissertação, tese, capítulo de livro, livro, ensaio, artigo), considero o trabalho muito bom quando a conclusão é robusta e costura de forma clara e argumentativa as premissas, a metodologia e as limitações do modelo adotado de investigação.

Dissertações e teses que finalizam com duas ou três páginas demonstram uma análise rápida, superficial e incompetente. Estas reprovo imediatamente. Não quero investigadores apressados, superficiais!

Se Moro fosse meu aluno, eu o teria reprovado com esta sentença ridícula e persecutória. Mal disfarçou sua pressa em liquidar sua vítima.

Em relação a outro personagem, o também vendedor de palestras Deltan Dallagnol, há muito o que se dizer. Angariou um título de doutor honoris causanuma faculdade privada cujo dono está sendo processado por falcatruas que o MP deveria investigar.

O promotor Dallagnol não seguiu uma única oitiva das testemunhas de defesa e acusação de Lula, além daquela do próprio ex-presidente.

Eu trabalho em pós-graduações stricto sensu de duas universidades públicas: uma em Maringá e outra em Ponta Grossa. Graças a isso fui contactado por meio de um coletivo para averiguar a dúvida sobre a compra por parte de Dallagnol de apartamentos do Programa Minha Casa Minha Vida em condomínio próximo à UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa).

Visitei os imóveis guiado por uma corretora e me dirigi ao Cartório de Registro de Imóveis da cidade. Após algumas semanas, a resposta: os dois apartamentos modestíssimos, destinados a gente pobre, tinham sido adquiridos pelo Promotor e estavam à venda com um lucro líquido em menos de um ano de aquisição de 135 mil reais.

Reuni o material e disponibilizei para a imprensa livre (aqui a matéria do DCM). O promotor teve que admitir que comprou os apartamentos para ganhar dinheiro na especulação imobiliária, sem resquícios de culpa ou de valores morais em ter adquirido imóveis destinados a famílias com renda de até R$ 6.500,00 (Deltan chegou a ganhar mais de R$ 80.000,00 de salários – além do teto constitucional, de cerca de R$ 35.000,00; e mais de R$ 220.000,00 em suas suspeitosas palestras).

Bom, analisando os discursos de Dallagnol, notamos claramente a carga de preconceito que o fez construir uma “doutrina” de nome exótico, o “explanacionismo”, para obter a condenação de um acusado sem prova de crime.

Chega a usar de forma cosmética uma teoria de probabilidade – o bayesianismo – que ele nem sequer conhece ao defender a relativização do conceito de prova: vale seu auto-de-fé a qualquer materialidade de prova, corrompendo os princípios basilares do Direito.

Como meu aluno, ou candidato a uma banca de defesa, eu também o teria reprovado: apressado, superficial e sem argumentação lógica.

Resumindo: Dallagnol e Moro ainda vestem fraldas na ciência do Direito. São guiados por preconceitos e pela cegueira da política sobre o Jurídico.

Quando tornei-me professor titular aos 38 anos, eu o fiz baseado numa obra maturada em dezenas e dezenas de artigos, livros, capítulos, orientações de estudantes e coordenações de projetos de pesquisa.

Infelizmente, estes dois personagens de nossa República contemporânea seriam reprovados em qualquer universidade séria por apresentar teses tão esdrúxulas, pouco argumentativas e vazias de provas. Mas a “Justiça” brasileira está arquitetada sobre o princípio da incompetência, da vilania e do desprezo à Democracia.

Neste contexto, Moro e Dallagnol se consagram como “heróis” de papel que ficariam muito bem sob a custódia de um Mussolini ou de Roland Freisler, que era o presidente do Volksgerichtshof, o Tribunal Popular da Alemanha nazista. Estamos sob o domínio do medo e do neo-integralismo brasileiro.

MARCOS CÈSAR DANHONI NEVES ” REVISTA FÓRUM” / JORNAL GGN” ( BRASIL)

*Marcos César Danhoni Neves é professor titular da Universidade Estadual de Maringá e autor do livro “Do Infinito, do Mínimo e da Inquisição em Giordano Bruno”, entre outras obras