A CASTA JURÍDICA QUE ADMINISTRA SÃO PAULO

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Em 2013, o defensor público Bruno Shimizu, de posse de parecer médico que indicava a necessidade de banho quente para presos tuberculosos, pediu ao Estado água aquecida nos presídios de São Paulo. Conseguiu uma liminar que determinava a instalação de chuveiros elétricos, restritos, àquela época, a 7% das penitenciárias estaduais. Suspensa pelo presidente do Tribunal de Justiça do Estado, a liminar acabou tendo decisão favorável em abril deste ano por determinação do Superior Tribunal de Justiça.

​Suspensões favoráveis ao Estado são rotina na segunda instância judicial paulista. Pesquisadora da Fundação Getúlio Vargas, Luciana Zaffalon analisou 566 processos que passaram pela presidência do TJ entre 2012 e 2015. Encontrou uma única situação em que o Estado foi derrotado 100% das vezes: ao questionar a aplicação do teto remuneratório no serviço público, em especial das carreiras do Judiciário, as mais bem pagas do Estado.

Luciana não se limitou às decisões do TJ. Debruçou-se sobre as 404 proposições relativas ao sistema judicial apresentadas à Assembleia Legislativa entre 2011 e 2016. Apenas 17% das mudanças legislativas não tiveram repercussão orçamentária, sendo que metade das leis aprovadas nesta seara resultou em aumentos, vantagens, bonificações, abonos e auxílios.

O governador Geraldo Alckmin foi o principal autor das benesses. Aprovou 91% das propostas que apresentou. Foi contemplado ainda com a possibilidade de suplementação orçamentária sem o crivo da Assembleia, o que, apenas no ano de 2015, resultou em quatro acréscimos às verbas do Tribunal de Justiça do Estado.

Os levantamentos foram a base da tese de doutorado apresentada por Luciana à Fundação Getúlio Vargas (FGV), que será transformada em livro, pela Hucitec, neste semestre. O título (“Uma Espiral Elitista de Afirmação Corporativa: Blindagens e Criminalizações a partir do Imbricamento das Disputas do Sistema de Justiça Paulista com as Disputas da Política Convencional”) poderia ser resumido em uma lápide: aqui jaz Montesquieu. O imbricamento mapeado por Luciana não é mais uma tese sobre a judicialização da política, mas da outra face da moeda, a politização do Judiciário.

O ineditismo de sua tese está na demonstração de como a elite judiciária de São Paulo ao mesmo tempo em que blinda a política de segurança pública do Executivo tem garantido uma política remuneratória que se vale de subterfúgios para extrapolar o teto constitucional. O dueto é avalizado pela Assembleia, em prejuízo do contribuinte e, principalmente, da democracia.

Os últimos sete secretários de Segurança Pública do Estado são egressos do Ministério Público. A tese demonstra que não se trata de uma coincidência. A repressão a manifestações (96 bombas de gás por dia no primeiro semestre de 2016) e as políticas prisionais seguem sem questionamentos daquele que deveria ser um principais contrapesos ao monopólio da violência pelo Estado. País com a quarta população carcerária do mundo (depois de EUA, China e Rússia), o Brasil é o único desses líderes a manter índice crescente de encarceramento. Mais de um terço dos presos brasileiros está em São Paulo.

A Defensoria Pública, criada em São Paulo depois que a maior parte dos Estados brasileiros já o havia feito, não aparece uníssona na ameaça à blindagem entre os poderes. Coordenadora do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM), Luciana Zaffalon foi ouvidora-geral da defensoria, instituição judicial mais bem-sucedida na estratégia de conseguir aumentos remuneratórios retroativos. Seu portal da transparência informa um rendimento médio mensal de R$ 26.980,00 (sem contar férias e 13º salário). Dos 716 registros do seu universo de análise, 12 estavam acima do teto constitucional daquele ano (2015), R$ 33.763,00.

As vantagens obtidas pelos defensores, no entanto, não são comparáveis àquelas com as quais os procuradores foram agraciados. De 1.920 matrículas do MP estadual, encontrou apenas 3% aquém do teto constitucional. O rendimento médio no MP em São Paulo em 2015 foi de R$ 45.036,30 (sem contabilizar férias e 13º).

Naquele ano, a complementação para vantagens, abonos e outras indenizações alcançadas pela carreira impuseram ao orçamento estadual gastos de R$ 421 milhões, o equivalente a 12 vezes a previsão daquele ano para as políticas de enfrentamento ao crack.

Dos três órgãos do sistema judicial paulista, o menos amigável à investigação foi a magistratura. O formato em que as informações são prestadas afronta resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e dificulta o manejo dos dados. A pesquisadora valeu-se do orçamento aprovado e do órgão de controle da magistratura para se aproximar da caixa-preta da toga paulista.

Na Alesp, presidida durante a maior parte do período pesquisado por um parlamentar egresso do MP (Fernando Capez), encontrou um fundo especial de despesas do TJ lá aprovado e destinado ao custeio de penduricalhos como auxílio alimentação, creche e funeral. Em relatório do CNJ identificou que a despesa média mensal com magistrados na Justiça estadual em 2015 foi de R$ 45.906,00.

Às dificuldades enfrentadas, contrapôs acórdão do ex-ministro do STF, Carlos Ayres Britto: “A publicidade é o preço que se paga pela opção por uma carreira pública no seio de um Estado republicano. A prevalência do princípio da publicidade administrativa outra coisa não é senão um dos mais altaneiros modos de concretizar a República enquanto forma de governo”.

Os dados de que dispunha, no entanto, lhe foram suficientes para concluir que a remuneração das carreiras judiciais em São Paulo é superior à média federal e à de cinco países europeus: França, Alemanha, Portugal, Espanha e Suécia. No Ministério Público, por exemplo, o rendimento médio anual dos procuradores paulistas em 2015 foi de € 157.130 (com férias e 13º), € 30 mil a mais que o dos procuradores federais e o dobro do valor nominal dos salários da carreira congênere na Alemanha. Os defensores paulistas, com um rendimento médio anual de € 95.239 euros (com férias e 13º), deixam para trás os congêneres alemães e suecos.

Os achados convergem com estudos que mostram o Judiciário brasileiro com um gasto médio por habitante (€ 94,2) superior ao da Suécia (€ 66,7), Itália (€ 50), Portugal (€ 43,2), Inglaterra (€ 42,2) e mais de três vezes aquele registrado na Espanha (€ 27). O mesmo acontece com o Ministério Público, com uma proporção de gastos per capita 15 vezes superior àquela da Alemanha e da Espanha, cinco vezes maior que em Portugal e três vezes ao registrado na Itália.

Luciana fez 15 entrevistas em busca de explicações, com defensores, juízes e procuradores. Esbarrou, no entanto, na negativa do presidente do Tribunal de Justiça do Estado à época de sua pesquisa, Renato Nalini. Valeu-se de artigo em que o magistrado reclama da condição de pedinte do Executivo e defende as despesas do TJ reputando-o como a maior Corte judicial do planeta, argumento que não explica a dimensão do gasto per capita.

Baseou-se ainda em entrevista concedida a um programa de televisão em que Nalini inclui, como justificativa para os adicionais, desde o desconto do IR até a necessidade de se vestir bem: “Hoje o juiz brasileiro ganha bem, mas tem 27% de desconto de imposto de renda, tem que pagar plano de saúde, tem que comprar terno e não dá para ir toda hora a Miami para comprar terno, a cada dia da semana ele tem que usar um terno diferente, uma camisa razoável, um sapato decente, tem que ter um carro”.

Com inaudita franqueza, o magistrado atribuiu a afronta ao teto constitucional à necessidade de evitar a depressão dos juízes: “Espera-se que a Justiça, que personifica uma expressão da soberania, esteja apresentável e há muito tempo não há reajuste do subídio, então o auxílio moradia foi um disfarce para aumentar um pouquinho e até para fazer com que o juiz fique um pouco mais animado, não tenha tanta depressão, tanta síndrome do pânico, tanto AVC. A população precisa entender isso”.

O outro lado da expressão da soberania judicial é explicitada no destrinchamento dos 15 processos relacionados ao sistema penitenciário que chegaram ao TJ e foram analisados na tese. Desses, 13 foram suspensos, em atendimento aos interesses do governo do Estado.

Versavam sobre medidas para sanar a superlotação na Fundação Casa (a antiga Febem), em presídios e na carceragem de distritos policiais em todo o Estado, além da requisição de médicos e dos já mencionados chuveiros elétricos. Em todas as decisões, o TJ alegou que os gastos necessários para atender os pedidos embaraçariam a gestão pública.

A simbiose se completa com a omissão do MP paulista em relação à violência policial, que em 2015 resultou em 2,3 mortes por dia, e à grande proporção de prisões em flagrante, cerca de 70% do total efetuado no Estado.

Inquéritos capengas que aceitam policiais como testemunhas levam ao arquivamento de mais de 90% dos processos que questionam os procedimentos. Um Judiciário aristocratizado, conclui, atua como protagonista na segurança pública e referenda o direito como território da força do Executivo, em detrimento da cidadania, com o beneplácito do Legislativo.

Além dos procuradores que comandam a Segurança Pública há duas décadas, o modus operandi da carreira já ditou as cartas na Secretaria de Governo (Marcio Elias Rosa) e hoje ocupa a Secretaria da Educação. A gestão de Renato Nalini foi responsável pela reforma que levou à ocupação das escolas estaduais no ano passado.

A aliança precede a chegada dos tucanos no poder. O PMDB ocupava o Palácio dos Bandeirantes com um titular egresso do MP (Luiz Antonio Fleury Filho) no massacre do Carandiru. Depois do estrago, um procurador do Estado, Michel Temer, seria indicado para comandar a Segurança Pública, sinal de que o consórcio dos Poderes antecede o PSDB, dá gênese à aliança com o PMDB e se nacionaliza.

MARIA CRISTINA FERNANDES ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

Maria Cristina Fernandes, jornalista do Valor, escreve neste espaço quinzenalmente

 

O AJUSTE FISCAL NUNCA EXISTIU

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Pouca gente sabe, mas, em seu primeiro mandato, a presidente Dilma Rousseff produziu fartos superávits fiscais, com 2,94% do PIB em 2011, 2,18% em 2012 e 1,72% em 2013. Apenas em 2014, com a retração da economia global e em especial dos preços do petróleo, houve um déficit de R$ 17,2 bilhões, equivalente a 0,57% do PIB.

Em 2015, ciente da nova realidade fiscal, Dilma substituiu Guido Mantega por Joaquim Levy e estava disposta a zerar esse pequeno rombo, com um ajuste ortodoxo que previa a volta da CPMF e também uma pequena reforma da Previdência.

O que aconteceu depois disso, no entanto, já é história. PMDB e PSDB, nas figuras de Eduardo Cunha e Aécio Neves, se aliaram para sabotar todas as iniciativas do governo federal, promovendo a política do “quanto pior, melhor” com suas pautas-bomba. Resultado: não houve ajuste e o Brasil fechou 2015 – ano em que Dilma, na prática, não governou – com um déficit de R$ 115 bilhões.

Veio 2016 e as contas públicas pioraram ainda mais. Embora o discurso da coalizão que promoveu o impeachment sem crime de responsabilidade fosse o da seriedade fiscal, o rombo foi de R$ 154 bilhões, dentro de uma meta generosa de déficit de R$ 179 bilhões que Michel Temer aprovou junto a sua base fisiológica. Curiosamente, enquanto falava em ajuste, Temer concedia aumentos a castas do funcionalismo, para saltar da interinidade à efetividade presidencial.

Agora, em 2017, o Brasil passou a operar com déficits mensais na casa dos R$ 20 bilhões – mais do que Dilma fez em todo o ano de 2014, provocando tanta histeria. Os rombos de Temer foram fruto não apenas da inexistência de qualquer ajuste fiscal, mas sobretudo porque a gestão de Henrique Meirelles, incapaz de ligar os motores do crescimento, aprofundou a depressão econômica – em dois anos, as receitas federais caíram cerca de 10%, com a paralisação total da atividade econômica.

Agora, com a decisão de mais do que dobrar os impostos sobre os combustíveis, a mentira simplesmente caiu por terra. O Brasil rodou, rodou, matou sua democracia sob a alegação de descalabros fiscais e produziu rombos orçamentários muito mais profundos. Quem é que vai pagar por isso? Você, é claro.

LEONARDO ATTUCH ” BLOG 247″ ( BRASIL)

 

NOITES DE BRASÍLIA: A INCRÍVEL HISTÓRIA DO SAXOFONISTA DO MENSALÃO

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“Há pessoas com nervos de aço”. Com uma voz de barítono, o então deputado Roberto Jefferson (RJ), líder máximo do PTB, divertia o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no seu amplo apartamento na quadra 302 da Asa Norte de Brasília. Uma pianista o acompanhava. Como espectadora, a professora de canto Denise Tavares, da Escola de Música de Brasília, assistia a tudo um pouco surpresa.

No dia seguinte à festa Denise Tavares perguntou ao saxofonista Vadim Arsky o que era tudo aquilo. Ela estava impressionada com a quantidade de políticos, ministros, autoridades, naquele convescote onde Roberto Jefferson soltara a voz cantando Lupicínio Rodrigues. Bem, para Vadim não era nenhuma surpresa. Naquele dia específico, Vadim não tinha tocado.

Mas há quase um ano, nas segundas-feiras, a cada 15 dias, ele comandava um trio de músicos que rotineiramente tocava na casa de Roberto Jefferson. Aquele que, algum tempo depois, precisou de fato de “nervos de aço” para denunciar o mensalão, o esquema pelo qual o PT repassava dinheiro aos aliados políticos do presidente Lula. Um esquema que levou à cassação do mandato e à prisão do ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e também do próprio Roberto Jefferson.

A história contada por Vadim, em relato exclusivo para Os Divergentes, é um curioso extrato de como se dá a relação política entre governos e partidos aliados no modelo de presidencialismo de coalizão brasileiro, em que as adesões passam longe das convicções ideológicas e acontecem somente em troca de verbas, cargos e outras benesses. Os políticos que chegavam de seus estados no início da semana iam para a casa de Jefferson para animadas rodadas políticas embaladas pelo saxofone de Vadim Arsky.

“Em meados de 2006, uma produtora me ligou e perguntou se eu estava disponível para tocar segunda-feira sim, segunda-feira não, em um apartamento na 302 norte”, conta Vadim. “Coloquei um preço bom (para mim) que foi aceito sem problemas”, continua. O saxofonista formou, então um trio, onde, além do seu saxofone, havia um piano e um baixo.

No repertório, standarts do jazz e clássicos da Bossa Nova. Sua primeira surpresa aconteceu quando foi recepcionado na porta pelo deputado Roberto Jefferson. A segunda surpresa foi quando viu o buffet, com opções caríssimas de camarões e outros quitutes. E garrafas de vinho de preços estratosféricos.

“Nessas reuniões chegavam todos os políticos do PTB, deputados, senadores e outros com e sem cargos no governo”, recorda-se Vadim. Segundo ele, o trio posicionava-se na sala exatamente atrás de onde ficava o sofá onde Roberto Jefferson se sentava. E enquanto os músicos tocavam, uma fila ia se formando de pessoas que buscavam o privilégio de uma conversa de pé do ouvido com o líder do PTB.

“De tempos em tempos, ele entrava com alguém para a área dos quartos”, conta Vadim. “Quando os convidados chegavam, eram saudados pelo título ou cargos que tinham. Quando havia alguma nova nomeação, era uma festa danada”.

“Uma das noites, o Roberto Jefferson pediu para tocarmos uma música que ele iria cantar”, recorda o saxofonista. “Após sua cantoria, disse a ele que tinha uma boa voz que poderia ser trabalhada por um bom professor de canto”. Foi assim que se iniciou a “carreira” de Roberto Jefferson como cantor.

No dia seguinte, a produtora que contratou as apresentações nas festas do líder do PTB pediu a indicação de um professor de canto. Vadim indicou Denise Tavares. Na sequência, a professora Denise pediu a Vadim indicações de um bom teclado para um músico e cantor iniciante. “Recomendei alguns para ele escolher. Durante esse tempo, continuei tocando nas segundas e ele me agradeceu por ter indicado a professora, mostrou o teclado novo e disse que estava tendo aulas de canto e gostando muito”, conta.

No dia em que Lula pisou na sala do apartamento da 302 Norte, Vadim planejava levar uma banda maior, a pedido de sua produtora. “Era uma data especial, pois o presidente iria à reunião naquele dia”, explica Vadim. “Logo em seguida, ela me ligou novamente e me disse que o Roberto Jefferson tinha optado por levar a sua professora de canto para aquele evento, e que seria acompanhado por uma pianista, que também era minha conhecida”.

“Depois do evento, a minha amiga cantora veio me contar sobre aquilo, se eu sabia o que estava acontecendo naquelas reuniões, pois no dia em que o Lula foi estavam praticamente todos os líderes dos partidos aliados do governo. Eu disse que não tinha ideia do que estava acontecendo. Achava que eram reuniões sociais políticas”, relata Vadim. O saxofonista não conhece detalhes maiores do que era discutido nas reuniões regadas a vinhos caros, camarões, jazz e bossa nova. Sua função ali era soprar seu saxofone.

As festas políticas na casa de Roberto Jefferson acabaram depois do dia em que o advogado paranaense Joel Santos Filho entrou com uma câmera escondida numa maleta na sala do então diretor da Empresa de Correios e Telégrafos, Maurício Marinho. Contratado pelo empresário Arthur Washeck Neto, Joel gravou um vídeo em que negociava com Marinho, um indicado do PTB de Roberto Jefferson, pagamento de propina.

O vídeo foi parar na capa da revista Veja. Maurício Marinho foi demitido por justa causa, o PTB caiu em desgraça, e Roberto Jefferson atribuiu tudo ao então ministro da Casa Civil, José Dirceu. Com ódio, Jefferson procurou a jornalista Renata Lo Prete, então no jornal Folha de S. Paulo, e denunciou a existência do mensalão. O resto é história, que, na sua sequência, hoje arrasta para a prisão dezenas de empresários e políticos com a Operação Lava-Jato.

Professor licenciado da Universidade de Brasília, Vadim Arsky hoje cursa PhD em educação musical na University of Florida, nos Estados Unidos. Ele pertence a uma linhagem que tem a música como vocação.

De acordo com Zuza Homem de Mello, no seu livro “A Era dos Festivais, uma Parábola”, o pai de Vadim, o advogado cujo nome é também Vadim da Costa Arsky, participou do primeiro dos festivais da canção da década de 1960, a I Festa da Música Brasileira, organizada pela TV Record no Grande Hotel, na Praia do Guarujá, em São Paulo. Segundo Zuza Homem de Mello, Vadim, o pai, classificou três músicas para o festival, que acabou vencido por Newton Mendonça, com sua “Canção do Pescador”.

A passagem do pai de Vadim pela era dos festivais é quase tão discreta quanto a de seu filho pelas reuniões políticas do governo Lula. Quase ninguém se lembra desse primeiro festival. Somente em 1965 é que a febre dos concursos de música iria estourar, com o Festival da TV Excelsior, vencido por “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, na voz de Elis Regina.

RUDOLFO DO LAGO ” BLOG OS DIVERGENTES” ( BRASIL)

 

POR QUÊ O MINISTÉRIO PÚBLICO PROTEGE JOSÉ SERRA ?

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Quando vazaram os dados da agenda de Marcelo Odebrecht no seu celular, os policiais da Lava Jato trataram de colocar uma tarja sobre o nome de José Serra. Quando os arquivos se tornaram públicos, pelo vazamento, não foi difícil eliminar a tarja. O encontro se daria n escritório de Verônica Serra, filha de Serra.

Há mais de vinte anos se conhecem os modus operandos de Serra:


1. Através de contas no exterior, operadoras por Ronaldo César Coelho e Márcio Forte.
2. Através dos fundos de investimento de sua filha.

Se se avançar até seu início de carreira no serviço público se encontrará sinais exteriores de riqueza no imóvel que adquiriu, logo que se tornou Secretário do Planejamento de Franco Montoro e, como tal, o homem que controlava a fila dos precatórios e as aprovações para importações de equipamentos médicos.

Nos anos 90, envolveu-se diretamente com escândalos no Banespa, através de seu sócio Vladimir Rioli; depois, no Banco do Brasil, através de seu cunhado José Marin Preciado e do operador Ricardo Sérgio.

No episódio do buraco do Metrô, consta que Serra recebeu R$ 15 milhões das três empreiteiras, para permitir que cada qual indicasse o engenheiro responsável, em vez da responsabilidade recair sobre o presidente de cada empreiteira. Fontes com acesso aos dados da Operação Castelo de Areia contam que, entre os documentos, estavam as comprovações do acerto.

No final de sua gestão, no governo do Estado, entregou à Serasa-Experian todo o banco de dados do Cadin (Cadastro Informativo dos Créditos não Quitados de Órgãos e Entidades Estaduais), uma mina de ouro.

Pouco depois, Verônica Serra adquiriu um provedor de e-mail marketing, que deveria valer no máximo R$ 40 milhões e revendeu para a Experian por R$ 104 milhões. Apesar de listada na Bolsa da Inglaterra, a Experian tratou os valores como sigilosos.

É possível que a inexplicável compra de um site bancário, a Patagon, pelo Santander – pela inacreditável quantia de R$ 700 milhões – tenha sido um modo de lavagem de dinheiro, visando influenciar autoridades para permitir que, mesmo depois de privatizado, o Banespa permanecesse com as contas dos funcionários do estado. A assessora do grupo argentino Patagon era justamente Verônica Serra.

Além desses episódios, o livro “A privataria tucana” está repleto de levantamentos sobre outras operações de Serra. Os fundos administrados por Verônica são de capital próprio. Provavelmente ele deve dispor de um capital superior a US$ 200 milhões, com participação expressiva no Mercado Livre.

É o maior sistema de lavagem de dinheiro da atualidade.

No entanto, o mais suspeito dos políticos brasileiros é blindado pelo Ministério Público Federal e pelo Estadual. Quando a blindagem se torna muito explícita, há alguns movimentos lentos, que não tem sequência.

No caso do escândalo Alstom, por exemplo, foi nítido o trabalho de abafa do procurador Rodrigo de Grandis. Ele atrasou por anos a entrega de documentos solicitados pelo MP suíço. Sua alegação foi que trocou de pasta os papéis e, por isso, não se lembrou mais do caso. A alegação foi aceita pelo CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) apesar das informações do Ministério da Justiça de que solicitara várias vezes a ele o encaminhamento dos documentos requeridos.

Agora, a montagem da ala paulista da Lava Jato não parece mudar muito o quadro.
Em Brasilia, não se tenha dúvida de que os processos contra Serra cairão com um Ministro amigo. A manipulação dos algoritmos do Supremo garantirá.

Vai se chegar ao final de uma onda supostamente moralista deixando intocável o mais rico e suspeito político brasileiro.

LUIS NASSIF ” JORNAL GGN” ( BRASIL)

NOTÍCIAS PELAS REDES SOCIAIS VIRAM FATOS SEM AUTORES

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Conheça os resultados da pesquisa do Instituto Reuters

Britânicos que leem notícias por meio de redes sociais ou sites de busca tendem a lembrar-se mais de quais plataformas usaram do que o portal que publicou o conteúdo. A informação, divulgada na última 4ª feira (19.jul.2017), é de estudo da Reuters Institute for the Study of Journalism na Universidade de Oxford.

Apenas 37% dos usuários que chegam até as reportagens por meio de mecanismos de buscas (como o Google), e 47% dos que usam redes sociais, nomearam corretamente a fonte após 2 dias. Por outro lado, 81% dos usuários que chegaram na notícia diretamente pelo site oficial lembraram onde esta havia sido publicada.

 

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Enquanto isso, 57% dos usuários lembraram-se quando o conteúdo foi encontrado por mecanismos de busca, e 67% se lembraram quando o acesso foi via redes sociais. Dos que chegaram à história pelo Facebook, 70% recordavam o caminho. No caso do Twitter, foram 60%.

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“A descoberta de que pessoas têm maior probabilidade de lembrar a plataforma pela qual acharam o conteúdo (por exemplo, Facebook) do que a publicação que o criou é preocupante muitos publishers“, escreveram os autores do estudo, Antonis Kalogeropoulos e Nic Newman.

“Algumas marcas mais fracas serão forçadas a reavaliar o uso destas plataformas para o marketing e desenvolver abordagens alternativas. Outros podem reafirmar a força de suas marcas e obter maior confiança em negociações com plataformas sobre modelos novos e existentes no futuro“.

Junto com a YouGov –companhia de pesquisa de mercado– o Instituto Reuters rastreou milhares de usuários de internet via desktop no Reino Unido. Perguntou-lhes o que conseguiam lembrar do que viam online após 48 horas.

O Pew Research Center conduziu uma pesquisa similar e descobriu que os adultos norte-americanos podiam lembrar-se das fontes de notícias em 56% das vezes. (Antes que você vá dizendo que americanos são melhores que britânicos em lembrar onde pegam suas notícias, você deveria saber que o Pew usou uma metodologia diferente –perguntou aos usuários apenas 2 horas após, e não tinham nenhuma maneira de verificar os seus resultados).

O Reuters Institute descobriu que organizações com identidades visuais fortes podiam atravessar melhor o barulho online. Quando acessado via mecanismos de busca, BBC News, The Guardian e The Telegraph eram as publicações com maiores índices de acerto.

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No caso das redes sociais, o BuzzFeed pulou para o top 3, sendo o 2º mais reconhecido. Em 1º lugar está The Guardian, e em 3º, a BBC.

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“O BuzzFeed construiu sua reputação produzindo conteúdo distinto, elaborado especificamente para o Facebook e outras plataformas de distribuição“, escreveram Kalogeropoulos e Newman. “Sua marca forte (ícones, cores e emojis) e o formato do conteúdo (vídeos, testes e listas) fizeram com que a marca fosse reconhecida, especialmente com os leitores com menos de 35 anos“.

Além disso, consumidores de notícias que acessam o conteúdo pelos sites que leem regularmente têm mais probabilidade de lembrar da fonte de informação. Destes leitores regulares, recordaram-se dos portais 80% dos que vieram de redes sociais e 72% dos que vieram de buscas.

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“Isso sugere que a baixa atribuição em plataformas de distribuição pode estar mais relacionada aos fracos níveis de engajamento pré-existentes do que com o impacto da própria plataforma“, escreveram os autores. “Dito isso, pode ser argumentado que a fraca relação existente entre várias publicações e consumidores é consequência da mudança para a descoberta do conteúdo por terceiros, além da quantidade de tempo gasto nas plataformas como o Facebook“.

O nível de lembrança dos leitores também depende do tipo de cobertura. As fontes de notícias políticas ou estranhas são lembradas com maior frequência. “O alto reconhecimento de notícias estranhas pode estar relacionado à popularidade do BuzzFeed, que é a fonte de muitas destas notícias”, afirmou o estudo.

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São capazes de atribuir corretamente os artigos de opinião aos seus portais de origem 59% dos usuários que provém de buscas e mídias sociais. Já textos analíticos e com explicações foram identificados corretamente apenas 27% das vezes.

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Visto que a natureza da procura dos textos de explicação que costuma ser idêntica –eles tipicamente se concentram em histórias que já estão nos jornais– Kalegoropoulos e Newman criaram uma hipótese: como eles tendem a seguir uma fórmula, isto os deixa mais difíceis de serem diferenciados.

“As páginas de busca por sites de notícias mostram uma lista de manchetes, todas quase idênticas. Se é difícil distinguir os textos entre si pelas manchetes e chamadas, talvez não seja surpreendente que uma certa marca seja menos identificável dentre as demais“, escreveram eles.

Talvez haja, afinal, uma esperança para o futuro. Usuários com menos de 35 anos, que são tipicamente mais familiares com as mídias sociais e a internet do que pessoas mais velhas, tendem a lembrar-se mais das fontes.

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O estudo completo está disponível aqui.
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*Joseph Lichterman é um autor da equipe do NiemanLab. Foi repórter para a Reuters em Detroit, cobrindo principalmente a falência da cidade –a maior da história dos Estados Unidos. Também trabalhou para a Automotive News e Michigan Radio, e foi editor-chefe de The Michigan Daily, o jornal estudantil independente da Universidade de Michigan. Joseph é nativo do Michigan. Leia aqui o texto original.

JOSEPH LICHTERMAN ” NIEMAN LAB” ( EUA) / “PODER 360” ( BRASIL)