A GUERRA ENTRE O PCC E O COMANDO VERMELHO PELA ROCINHA

Militarrrr-696x483.jpg

A vitória ou a derrota nas brigas entre gangues armadas no mundo do crime depende da capacidade de fazer alianças para aumentar o poder de fogo. Como na política, não há limites para trocas de parceiros, traições, desde que produzam resultados.

É o que rola agora no Rio de Janeiro. Ali, a Amigos dos Amigos (ADA), segunda maior facção do tráfico de drogas no Rio de Janeiro, tinha como joia de sua coroa a cobiçada favela da Rocinha.

A disputa interna pela gestão desse tesouro rachou a ADA. Capo na facção, Antônio Bonfim, o Nem, inquilino de uma cela em uma penitenciária de segurança máxima em Rondônia, resolveu destituir um de seus homens de confiança, Rogério Avelino, o 157, que o substituiu na gestão da quadrilha na Rocinha.

Além de cúmplices de outras favelas, Nem resolveu arriscar na empreitada ao costurar o apoio do PCC, o Primeiro Comando da Capital, facção criada a partir de presídios em São Paulo que se tornou líder nesse submundo dentro e fora das cadeias.

Em seu plano de expansão, o PCC rompeu no ano passado o pacto de não agressão com o Comando Vermelho, maior facção do Rio de Janeiro e segunda maior do Brasil. Virou guerra aberta em vários Estados e em países vizinhos.

Desde então uma das prioridades do PCC é conquistar espaço no território de seu rival, o Rio de Janeiro. A Rocinha sempre foi o principal alvo, por ser estratégica na distribuição e venda de drogas na região mais rica da cidade.

O PCC agora resolveu aproveitar a oportunidade.

Aos trancos e barrancos, está em curso uma operação conjunta entre forças federais e estaduais no Rio de Janeiro. Elas ficaram algo travadas por uma desconfiança recíproca. Nenhuma das partes se sente à vontade para abrir todas as cartas.

Mesmo assim, compartilham, em sigilo, algumas informações preciosas.

Por exemplo, a atuação do PCC na tentativa da turma de Nem de retomar a Rocinha. O que se apurou no Rio, e foi compartilhado com o comando da operação em Brasília, é que o PCC desembolsou grana para bancar a tomada do poder na Rocinha.

Pelo que se sabe até agora, a ajuda ficou nisso. Não mandou, por exemplo, combatentes para a batalha, até porque Nem e seus parceiros do Rio têm soldados suficientes para enfrentar a guerra.

Pelo que as forças de segurança no Rio já apuraram, Rogério 157 conseguiu dar troco. Pediu e obteve um compromisso de proteção do Comando Vermelho.

Áudios interceptados pela polícia, divulgados pelo O Globo no fim-de-semana, mostram mais uma reviravolta entre a bandidagem no Rio. Os interlocutores contam que a ordem de tratar como amigos os antes inimigos do bando de Rogério 157 partiu de Bangu 3, presídio do Complexo de Gericinó, sob controle do Comando Vermelho.

Por mais assustador que seja, cada facção cuida de seu galho nos presídios de Bangu.

Em outro áudio, a ordem é recepcionar os fugitivos leais a Rogério 157 que se escondem do avanço das tropas estaduais e federais na Rocinha:

“Todos os que rodarem no bonde do RG tem que vir pra nós. A Rocinha é nós”.

Não basta conhecer o jogo dessas quadrilhas.

Desde os massacres em presídios, palco da guerra entre PCC e Comando Vermelho e seus aliados, a reação, seja estadual ou federal, é sempre de improviso.

A guerra se alastra. Não se conhece um plano consistente para virar esse jogo.

Parece mais um dos buracos negros em que o país se afunda.

A conferir.

ANDREI MEIRELES ” BLOG OS DIVERGENTES” ( BRASIL)

 

 

Anúncios

A ELITE CARIOCA CONTINUA ABUSANDO DA DESIGUALDADE

foto-minc-moreira.jpg

‘Facção liderada por Moreira Franco tentou tomar de assalto a cena do Rio’

DESAGREGAÇÃO E FASCISMO

Hoje, ter informação não é mais sinônimo de deter o poder. Informação entra pelos poros, pelas narinas, pela explosão de multitelas, multiplataformas, em sua íris ou pelo ouvido. A partir dali, são insondáveis os caminhos percorridos até o processamento final. Mas uma certeza não é vã: há que haver base para extrair dela, da informação, a substância capaz de fazê-lo olhar para frente e seguir como sujeito da História, e não como conjunção acessória.

Ter algum poder, até o poder de decidir não fazer nada e quedar-se resignado, é saber como costurar o mosaico de inputs que lhe chegam pelo smartphone, pela web, pelos veículos tradicionais de comunicação, pela conversa tête-a-tête que jamais deixou de valer a pena, pela leitura dos analistas certos no momento adequado. O Brasil do último fim de semana nos brindou com o momento ideal para fazê-lo.

No domingo (24.set.2017) uma facção liderada pelo publicitário Roberto Medina e pelo secretário-geral da Presidência da República, Moreira Franco, tentou tomar de assalto a cena dantesca de um Rio de Janeiro conflagrado em meio a tropas ocupando ruas com blindados e armamento de guerra e disputas por morros entre traficantes. Viciados em propaganda com dinheiro público e sem nada mais a oferecer senão verbas do erário da propaganda oficial, Medina&Moreira anunciaram um “Calendário de Atividades Turísticas” para “reeguer” o Rio ao custo de R$ 200 milhões.
Sócio da Artplan, agência de publicidade que contém uma empresa de eventos e inventou o Rock in Rio, além de deter diversas contas publicitárias federais administradas por Moreira Franco, o velho Medina fez o que sabe fazer como poucos: vendeu ilusões, cobrando caro e com cliente certo a bater à porta como associado –a mídia tradicional, fissurada em verbas de divulgação sobre o nada.

Alguns amigos pessoais foram a essa edição provecta do Rock in Rio, festival que perdeu o elã de plataforma de lançamento do país para o futuro, ao trazer para cá as vozes e os acordes da contemporaneidade. A rave de Roberto Medina e de sua família virou, na verdade, uma espécie de “Almoço com as Estrelas” em que ele –um Chacrinha engomadinho– faz as vezes de Airton Rodrigues (marido de Lolita Rodrigues, apresentador original da atração) e faz questão de confundir e não de explicar como o Abelardo Barbosa d’antanho. A soldo e a tiracolo, Moreira Franco, o ex-adepto do maoísmo que se crê intelectual orgânico do Palácio do Planalto – um deserto onde não floresce nem joio, nem trigo. Quiçá intelectuais…

Ao passo que o Rio de Janeiro da vida real se fechava em casa com medo da guerra de facções que desceu o morro e se embrenhou nas matas por onde bandidos podem acessar diversos bairros da cidade, o Rio de Janeiro edulcorado de Medinas, Moreiras e de João Doria (que esteve lá, como pretendente a candidato presidencial) botava a língua de fora e posava com as mãos em gestos ridículos de polegar, indicador e mindinho estendidos –como se o mundo fosse “roquenrou”. Não é.

A coisa mais estúpida que li no post de alguém, numa rede social, foi a decretação de que eram cidades apartadas –a do Rock in Rio e da guerra nas favelas.

Só alguém desprovido da capacidade de se indignar pode aceitar que este ano se estima o registro de 60.000 homicídios no Brasil. E em outros 115 países –entre eles EUA, Rússia, China, Canadá, todas as Nações do continente europeu, somados, terão média de homicídios igual à brasileira. Estou a falar de uma cifra abaladora e desabonadora. Estamos a ter de lidar com uma verdadeira desagregação social.

Não só o Rio é uma cidade partida. São Paulo o é. Recife, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte, Goiânia, Vitória, Manaus, Belém, Porto Alegre estão partidas. E mesmo Caruaru (PE), onde um apresentador da Rede Globo local levou um tiro na cabeça proveniente de bala perdida, ou Crateús (CE), onde assaltos a banco viraram rotina. Brasília, outrora ilha de tranquilidade, é já uma metrópole a padecer dos mesmos males da maré de violência e insegurança.

O país naufragou na ausência absoluta de um projeto de união nacional e os que nos oferecem os áulicos palacianos –aqui, Moreira e seu escudeiro Medina a pilotar a facção propagandística desse último domingo em terras cariocas– é um Calendário Turístico”?

Ao cimentar as pedras do mosaico e dar contorno de mapa mental às informações dispersas no jorro de notícias dos últimos dias é patente a constatação da chegada do Brasil a um ponto de inflexão: cairemos numa aventura, e isso será doloroso.

Lutar contra a usurpação do poder por um grupo que tomou de assalto o Palácio presidencial, como ora ocorre, é uma coisa. Brigar até os estertores das regras democráticas para que a sucessão de uma trupe ilegítima se dê na direção de quem não tem compromissos com a democracia –como Bolsonaro, Mourão e, em alguma medida, Doria– é do jogo e está dentro do razoável. Imaginar, contudo, que um desses possa via a ser legitimado pelo voto é impensável. Mas não é impossível. Além disso, caso desabe essa tempestade sobre a vida nacional, ela não se daria sem a vitória nas urnas estaduais de um ou outro candidato a governador que reze na cartilha bestial desses proto-políticos.

A ascensão legítima ao poder de qualquer um desses nomes do trio-que-baba-e-rosna tornar-se-ia o reagente a provocar a desagregação definitiva de nossa sociedade.

Enxergo, contudo, uma nesga de saída constitucional: a mudança abrupta, imediata, do poder formal –fazendo-o sair do grupo que hoje está no Planalto e devolvendo-o ao caminho sucessório constitucional. Isso faria a ordem regressar, sem necessariamente desfazer a violenta ruptura institucional experimentada pelo impeachment de 2016. Só uma injeção de legitimidade e restauração, fazendo a fila andar e a faixa simbólica da Presidência passar às mãos do Parlamento onde há eleitos, embora não o tenham sido para tal, será capaz de interromper a escalada do país na direção do abismo. Ele é visível no horizonte, está à extrema direita do cenário. Só não o vê quem não quer.

LUIS COSTA PINTO ” BLOG PODER 360″ ( BRASIL)

 

A PELEJA ENTRE UM JUIZ DA IDADE MÉDIA E UM LÍDER POPULAR

Moro_Lula-696x477

Estamos cercados por uma profusão de pesquisas, muitas feitas on line, sob critérios diversos e com resultados para todos os gostos. Sem falar nas que não são divulgadas publicamente e chegam via redes e mensagens. Às vezes, provocam mais confusão do que esclarecimentos. Quando começam a convergir, porém, é bom prestar atenção. O fim de semana trouxe, via Estadão, o Barômetro Político do Insituto Ipsos que, lida em conjunto com a CNT/MDA da semana que passou, e com a Poder360 deste mês, confirma a consolidação da aprovação de Lula e outras tendências, como um certo desgaste de João Dória e uma inusitada desaprovação de Sergio Moro.

O Ipsos faz pesquisa mensal de credibilidade, e não afere preferências eleitorais. Mas o resultado de setembro (entre os dias 1 e 14/9) bate com os levantamentos que mantém o ex-presidente Lula na liderança para 2018, mesmo após a condenação por Sergio Moro e a quase delação de Antônio Palocci, no dia 6 de setembro. Na comparação com agosto, a desaprovação de Lula caiu de 66% para 59%, enquanto a aprovação subiu de 32% para 40%.

Ao mesmo tempo, seu principal adversário no duelo de titãs da opinião pública, o juiz Moro, viu sua taxa de desaprovação alcançar 45%, bastante próxima da taxa de aprovação, que ficou em 48%. Há um ano, os números de Moro eram 55% de aprovação x 27% de desaprovação. Para alguns observadores de pesquisas, isso pode indicar que Lula vem sendo bem sucedido na estratégia de vitimizar-se diante de Moro, e que o juiz pode estar exagerando ao manter sua fama de mau nos depoimentos-confronto gravados em vídeo e amplamente propagados pela mídia.

Desde o início da Lava Jato, a imagem do juiz não fora abalada. Esse é um dado novo e importante para todos os estrategistas da eleição de 2018, que, ao que parece, terá na corrupção um de seus pilares discursivos. Será?

Outro dado do Ipsos que confirma tendência detectada pelas pesquisas presidenciais é um certo desgaste do tucano João Doria, que parece ter exagerado na dose de marketing e de viagens nos últimos tempos, passando a ideia de ter abandonado a gestão de São Paulo. Sua desaprovação subiu de 52% para 58%, enquanto a aprovação caiu de 19% para 16%. Ainda assim, é o tucano em melhor situação, já que a desaprovação de Geraldo Alckmin chega a 75%, perdendo apenas para o campeão dos campeões, Michel Temer, reprovado por 94% dos entrevistados, e para Aécio Neves, com 89%.

 

HELENA CHAGAS ” BLOG OS DIVERGENTES” ( BRASIL)

A QUEIXA – CRIME DE UM MAGISTRADO À PROCURADORIA DA REPÚBLICA CONTRA A INDÚSTRIA DE VAZAMENTOS DA LAVA JATO

 

9

Ex-presidente do STJ noticiou a procuradora-geral

Cesar Asfor Rocha foi citado por Antonio Palocci

Janot não apurou vazamentos de forma conclusiva

Uma notícia-crime apresentada na 5ª feira (21.set.2017) ao Ministério Público Federal coloca pressão sobre a nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge, para apurar vazamentos de informações de delações premiadas ainda não homologadas.

Os vazamentos têm sido uma prática comum e constante de grandes apurações como a Lava Jato. Até hoje, houve questionamentos moderados por parte de advogados e pessoas citadas nesses casos. O ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot criticava em público os vazamentos, mas durante sua gestão nunca conseguiu apurar a responsabilidade por nenhum desses episódios.

Agora, veio a mais contundente reação a essa estratégia de vazamentos regulares. Se a ação prosperar, pode resultar na abertura de um caminho para coibir tal prática.

O autor da notícia-crime é o ex-presidente do Superior Tribunal de Justiça Cesar Asfor Rocha. Ele contratou como advogado o ex-procurador-geral da República Aristides Junqueira (que ocupou a função de 1989 a 1995). Ambos assinam a notícia-crime que chegou às mãos de Raquel Dodge na 5ª feira. Eis a íntegra do documento.

Asfor Rocha apareceu num vazamento de informações sobre o acordo de delação premiada que está sendo negociado pelo ex-ministro Antonio Palocci. O petista serviu aos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff. Teria afirmado que o então presidente do STJ em 2010 foi o destinatário de uma propina de R$ 5 milhões. O dinheiro teria sido pago em troca de uma medida liminar (provisória) que suspendeu uma investigação contra a empreiteira Camargo Corrêa.

Asfor Rocha nega ter cometido irregularidade. Tentou via judicial saber se Palocci de fato teria feito tal declaração. Não teve sucesso. Resolveu então ir ao ponto central do problema: sem questionar o direito de a mídia publicar as informações, indagou ao Ministério Público sobre o possível crime cometido.

A notícia-crime assinada por Asfor Rocha e por Aristides Junqueira começa citando as menções aos vazamentos na mídia –no jornal Folha de São Paulo (26.ago.2017) e na revista Veja (20.set.2017). Depois, argumenta de maneira minuciosa o seguinte sobre o eventual ilícito cometido por algum agente público:

“A colaboração premiada é sigilosa até eventual homologação”

(…)

“Referidas publicações [na mídia] tanto podem reproduzir conteúdo falso (…) como podem reproduzir conteúdo coincidente com o relatado no âmbito de negociação do citado acordo de colaboração –isso é se, de fato, há negociação de delação em curso com imputação de crime ao ora noticiante. Em ambas as hipóteses há materialidade do crime: (a) de calúnia ou (b) de imputação falsa de que o noticiante é vítima. Mas na segunda hipótese, e é dessa que se cuida na presente manifestação, há potencialmente o cometimento de crime igualmente grave”.

“Basta a parcial transcrição das publicações acima mencionadas para se constatar, em tese, a possibilidade de ter sido cometido crime de violação de sigilo funcional, definido no art. 325 do Código Penal, dentre os crimes praticados por funcionário público contra a Administração em geral”.

Com efeito, o conteúdo dos depoimentos supostamente colhidos no âmbito da denominada ‘colaboração premiada’ está resguardado pelo sigilo previsto no art. 7° da Lei 12.850/2013. Assim, enquanto não instaurado formalmente o inquérito, o acordo de colaboração e os correspondentes depoimentos estão sujeitos à tramitação sigilosa”.

“Embora uma das reportagens citadas afirme que os procuradores guardam a sete chaves o acordo de colaboração premiada de Antonio Palocci, se ele de fato existir, a violação de seu sigilo é inconteste e a autoria de tal violação há de ser perquirida e oferecida denúncia contra os autores”.

“Repita-se que é impossível ao noticiante confirmar se existe ou não negociação de delação premiada em curso, mas esta informação, bem como os detalhes do que está sendo negociado, pode ser facilmente constatada pelo Ministério Público Federal”.

“É, também, inquestionável que a eventual violação do sigilo aqui noticiada, mediante subsequente publicação nos meios de comunicação social, torna o noticiante vítima, eis que ofendido em sua honra”.

Ao final da notícia-crime, o ex-presidente do STJ faz 1 pedido bem direto para a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, nos seguintes termos:

“Por todo o exposto, o noticiante pede e espera que Vossa Excelência, Chefe do Ministério Público Federal, requisite à Polícia Judiciária Federal, nos termos do art. 5°, II, do Código de Processo Penal, a instauração de inquérito policial para apurar materialidade e autoria do crime de violação de sigilo funcional cuja indício de materialidade está acima demonstrado”.

Em resumo, argumenta Asfor Rocha, algum crime houve. Agentes públicos detentores de informação sigilosa vazaram os dados para a mídia –cuja obrigação é sempre publicar o que tem relevância jornalística e interesse público.

O que se passa agora é que 1 ex-presidente do STJ e 1 ex-procurador-geral da República pedem a Raquel Dodge que formalmente investigue o que se passou. Não se trata de tarefa fácil encontrar quem dentro do Estado repassa ao público informações sigilosas.

Caberá a Raquel Dodge, por meio da Política Federal, abrir ou não 1 procedimento formal. Já será, no mínimo, 1 constrangimento caso a PF abra 1 inquérito e convoque para depor os procuradores e delegados envolvidos nas negociações da delação premiada de Palocci.

O caso pode se tornar ainda mais dramático se a PF exigir dos procuradores que descrevam os procedimentos adotados para manter tais negociações em sigilo. Ao final, pode ser ou não encontrado o responsável pelo vazamento, mas certamente haverá algum tipo de conclusão que poderá levar a novos protocolos internos no Ministério Público que tornem mais difíceis a entrega dessas informações ainda durante o curso de uma investigação.

VAZAMENTO COMO MÉTODO

Houve vazamentos de detalhes de quase todas as delações premiadas durante a operação Lava Jato enquanto os acordos ainda estavam sendo negociados. Trata-se de uma estratégia de parte dos integrantes do Ministério Público e da Polícia Federal. Às vezes também há suspeita que advogados envolvidos nos processos sejam os responsáveis pela divulgação de informações sigilosas.

Alguns procuradores acreditam que com vazamentos publicados na mídia podem manter a opinião pública informada, aumentam a pressão sobre agentes políticos e do Poder Judiciário e blindam a investigação contra eventuais ataques que possam parar o processo.

Na maioria das vezes, o roteiro é seguido de maneira quase automática: a) o possível delator negocia 1 acordo e faz uma determinada acusação contra uma autoridade; b) alguma informação então acaba publicada na mídia sem grandes questionamentos.

Tem sido raro ler no noticiário análises mais profundas sobre o que dizem os delatores e se suas informações vazadas são de fato consistentes. Isso ocorre por 2 motivos. Primeiro porque os alvos das acusações muitas vezes são políticos suspeitos de vários crimes e a narrativa sempre parece crível à primeira vista. Segundo, porque a mídia trabalha em ambiente de hipercompetitividade: os repórteres nunca podem correr o risco de receber uma informação e perder a oportunidade de publicá-la na frente dos veículos concorrentes.

Os agentes públicos, da PF e do Ministério Público, conhecem essa conjuntura. Têm sido bem sucedidos na parceria que fizeram com a mídia.

NARRATIVA INCOMPLETA

Por conta da conjuntura descrita acima, envolvendo mídia e agentes públicos relacionados a delações, quando há vazamentos encontra-se, em geral, pouca ênfase nos fatos que possam desconstruir a narrativa do delator.

Segundo o vazamento disponível até o momento, Antonio Palocci teria relatado que sabe apenas sobre o eventual pagamento de propina a Asfor Rocha –o repasse teria sido “depositado numa conta no exterior”. Não há informação disponível sobre qual conta seria essa nem se mais dinheiro teria sido pago de suborno no caso da Castelo de Areia.

A citação a Asfor Rocha, se virar uma acusação formal, certamente será apurada pela Justiça. Ocorre que há também outros fatos correlatos que permanecem obscuros.

Por exemplo, o então ministro do STJ apenas concedeu uma medida liminar (provisória) que suspendia (mas não anulava a operação Castelo de Areia). Sua decisão se deu em 14 de janeiro de 2010, durante o recesso do Judiciário. É praxe nesse período o presidente do Tribunal decidir casos urgentes. Depois disso, Asfor Rocha nunca mais atuou nesse processo.

E o que aconteceu depois? A 6ª Turma do STJ, em decisões sucessivas, ratificou a necessidade de suspender e anular a Castelo de Areia. A relatora dessa ação foi a ministra Maria Thereza de Assis Moura.

Muito tempo depois, o caso foi parar no Supremo Tribunal Federal. Coube então ao ministro Luís Roberto Barroso a decisão, que foi exatamente a mesma que havia sido já proferida pelo STJ.

Quando se observa a história completa, a narrativa inicial fica menos consistente: como seria possível interromper uma investigação dessa envergadura pagando propina apenas a 1 ministro do STJ e não aos demais (inclusive a 1 do STF) que tomaram decisões idênticas? A resposta a esse questionamento é desconhecida. Não se sabe tampouco se os negociadores da delação premiada de Palocci questionaram o ex-ministro a respeito. Nada disso aparece nos vazamentos até agora conhecidos.

Caso a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, decida abrir uma investigação a respeito, mais respostas poderão começar a aparecer.

PUBLICADO PELO “BLOG PODER 360” ( BRASIL)

O PAÍS DAS ROCINHAS

rio16.jpg

O espanto generalizado com a guerra na Rocinha só pode vir do vício de espantar-se com os atos todos da violência urbana, não importa se maiores ou minúsculos, se astuciosos ou vulgares. Rocinha não é mais do que uma celebridade (a palavra-símbolo do jornalismo deslumbrado) entre milhares de assemelhadas pelo país afora.

Na Rocinha há fuzis modernos, sim. Em Brasília, os equivalentes aos criminosos da Rocinha têm a mais abrangente e terrível das armas: o poder –de governar em benefício de grupos, de legislar em causa própria e dos subornadores, de queimar uns poucos comparsas e preservar o grosso da bandidagem engravatada.

Se é assim no cimo do país, onde também se travam lutas por mais domínio, o que esperar dos que têm a mesma índole sem, no entanto, receberem da vida as mesmas oportunidades? Assalto por assalto, dos cofres públicos é roubado muito mais, nem se sabe quantas centenas de bilhões, do que o dinheirinho de passantes, o troco das caixas de lojas, os celulares, relógios e carros.

Há as drogas. Todas as Rocinhas são dadas como entrepostos de droga. São vendedoras. Inclusive para os consumidores armados de poder e seus sócios no elitismo. Nas Rocinhas, vem em papelotes. Nas festas da fortuna, a droga vem em bandejinhas de prata. Elegância e poder não costumam andar juntos, mas às vezes coincidem.

O tráfico proveniente das Rocinhas é uma desgraça. Há, porém, um tráfico mais devastador. O tráfico de drogas destrói indivíduos, o tráfico de influência nos gabinetes e salões do poder arrasa multidões, mais de 200 milhões de seres roubados em dinheiro e em direitos pelos negócios do suborno e da influência.

Os delinquentes de todas as Rocinhas matam. Muito. E o fazem, é verdade, com indiferença e perversidade. Pensar que a airosa Fortaleza é a quinta entre as dez cidades mais violentas das Américas, sendo o Rio a décima e última, parece estatística de economista.

O homicídio originário das Rocinhas cresce e se espalha, incontrolável. Em paralelo ao homicídio que não leva esse nome, para proteger seus culpados. E que assassina com as armas letais que são a ausência de remédios para transplantados, HIV, diabéticos, tuberculosos, cardíacos, e tantos mais, por “falta de verba” que ricaços no poder cortaram.

Quando não é a morte assim, é a tortura pela espera de leito hospitalar, pelos meses à espera de um teste de câncer, pelos meses à espera da cirurgia. Pela espera impiedosa da morte. Decretada nas altitudes luxuosas de Brasília, nas roubalheiras cabralinas não só fluminenses, e muitas vezes autorizadas pela maioria de travestis do Congresso –bandidos passando-se por representantes do povo. Os homicídios dos delinquentes das Rocinhas em geral são muito menos numerosos.

A insegurança urbana é indignante e injusta. Até filas de emprego são assaltadas, bandidos pobres roubando pobres trabalhadores. Mas a delinquência que sai das Rocinhas, e transtorna as suas cidades, generaliza espantos e horrores. Uma caverna com R$ 51 milhões tomados pela delinquência armada de poder político, ah, essa excita o bom humor. E a criminalidade das Rocinhas não é subproduto da delinquência engravatada, indiferente às suas vítimas tal como a delinquência urbana? Ambas tão comuns, tão antigas, consanguíneas, diferentes apenas na extensão em que infelicitam o presente e o futuro país.

COMO SEMPRE

Apesar das muitas críticas ao governador Luiz Fernando Pezão, ao proibir a intervenção policial na guerra de bandos, domingo passado na Rocinha, ele por certo evitou uma mortandade inútil no que seriam os três lados do tiroteio. E, pior, nos alvejados pelas ditas balas perdidas.

Na intervenção agora consumada, mais uma vez o Exército mostra, desde as primeiras decisões, que ainda não compreendeu o problema e, portanto, as suas possibilidades. Erros que se repetem desde a cúpula ambiental Rio-92. É demais.

JANIO DE FREITAS ” FOLHA DE S.PAULO” ( BRASIL)

2018: SE NÃO CAIR ANTES, TEMER SERÁ A GENI DA CAMPANHA

images-cms-image-000550450

São crescentes os sinais de que a campanha presidencial de 2018 terá fortes semelhanças com a de 1989, a primeira após o fim da ditadura. Uma delas será a presença de um presidente altamente impopular e rejeitado, contra o qual todos os candidatos vão atirar impiedosamente. A Geni da música de Chico Buarque.

Assim foi com o então presidente José Sarney em 1989. Fernando Collor, que bateu mais, levou. Mas Temer, que não pode ir às ruas e nem mesmo aparecer nas redes sociais, pode cair antes, com a aprovação da segunda denúncia contra ele pela Câmara.

Em 1989 Sarney tinha de 7% de aprovação, o dobro do que tem Michel Temer hoje, 3,4%. A rejeição a Sarney era de 60% no final do mandato. A de Temer, segundo a pesquisa Ipsos, era de 94% em Julho. Sarney não apoiou nenhum candidato em 1989. Todos eram de oposição a seu governo, inclusive o do PMDB, Ulysses Guimarães, que também por conta da filiação de Sarney a seu partido, para poder ser vice de Tancredo Neves, amargou um quinto lugar no resultado final, apesar de ter sido o comandante da oposição ao regime militar, e ter sido o Senhor Diretas e o Senhor Constituinte. Temer também não terá candidato. Mesmo que queira, ninguém aceitará receber o beijo da morte de seu patrocínio.

Em 1989, foram 22 os candidatos a presidente. Para 2018, o número dos postulantes tem crescido dia a dia. E como o quadro partidário hoje é muito mais fragmentado, podemos chegar à mesma dispersão de candidaturas. Já temos a candidatura de Lula, o preferido em todas as pesquisas, mas condicionada ao trâmite dos processos que ele enfrenta na Justiça, com o objetivo claro de inabilitá-lo para a disputa.

E ainda as de Bolsonaro (PSC), Marina Silva (Rede), Geraldo Alckmin (ou Dória, pelo PSDB), Alvaro Dias (Podemos) e Chico Alencar (PSOL). O DEM garante que terá candidato próprio. E haverá, é claro, uma constelação de candidatos de pequenas sigas, o que tornará o horário eleitoral insuportável.

Se Temer não cair antes, será a Geni de todos eles. Lula não o tem poupado. Álvaro Dias subiu o tom, agora chama Temer de chefe de quadrilha. Marina também está corrigindo seu discurso equivocado. Alckmin e Dória, por conta do apoio do PSDB ao Governo e da parceria com o PMDB no golpe, estão sendo indulgentes com Temer, e quando perceberem o erro que estão cometendo, pode ser tarde. Mas com certeza, acabarão direcionando o cano da espingarda para o ocupante do Planalto. Isso se ele ainda estiver na cadeira em 2018.

Pois crescem a olhos vistos as possibilidades de acolhimento desta segunda denúncia, apesar da cantilena dos governistas de que irão enterrá-la sem dificuldades e do começo da queima de emendas parlamentares e outros recursos para atender ao apetite dos aliados.

Temer agora está com o arsenal fiscal esgotado, com a base dividida, com Rodrigo Maia ressentido e com os militares ameaçando com uma intervenção caso a crise não seja resolvida pelos poderes constituídos. A crise é sua permanência no Planalto.

TEREZA CRUVINEL ” BLOG 247″ ( BRASIL)

TEMER TEM DUAS EQUIPES ECONÔMICAS: A DE MEIRELLES APERTA; A DE JUCÁ AFROUXA

meirelles-dyogo-sergio-lima-22-dez-2016.jpg

Os ministros Henrique Meirelles (Fazenda) e Dyogo Oliveira (Planejamento)

Na Fazenda, fala-se a língua do mercado

No Planejamento, velha política manda

Há uma clara disputa econômica dentro do governo. Um lado, que está concentrado no Ministério da Fazenda, fala a língua do mercado e busca realmente ajuste fiscal sólido e sustentável no longo prazo. O outro, que controla o Planejamento, fala a língua da velha política e está mais preocupado com sua sobrevivência e seus foros privilegiados em tempos de Lava Jato.

A ação “econômica” desse 2º grupo se baseia na busca de recursos públicos para custear liberação de emendas, principal moeda do Congresso. Para isso, não medem esforços para prospectar setores do Estado de onde fazer cortes, pouco importando se isso comprometeria o serviço a ser prestado (desorganiza carreiras de gestão pública, polícia, receita, etc); e setores da economia onde aumentar tributos com pouco impacto político adverso (eleva PIS/Cofins de combustíveis enquanto anistia ruralistas).

Como tudo isso não é suficiente para as bocas de jacaré do Congresso, o Planejamento ainda forçou a ampliação da meta de déficit fiscal para 159 bi, mesmo com forte oposição do ministro Meirelles. O mercado lê esse cenário com clareza, tanto que a Bovespa só reage positivamente às medidas governamentais se forem oriundas do Ministério da Fazenda, tais como a desestatização da Eletrobrás e a nova TLP do BNDES. Porém, a mesma bolsa anda de lado quando a velha política prevalece e amplia o rombo fiscal.

De nada adiantou o Planejamento tentar anestesiar o anúncio do rombo com adiamento reajustes de servidores, que já se sabe que será revertido, pois é direito adquirido conforme jurisprudência do STF (Supremo Tribunal Federal) e STJ (Superior Tribunal de Justiça). Ou seja, se o governo insistir nisso, vai gerar mais judicialização e um esqueleto a ser pago pelas gerações futuras. Vai apenas adiar e aumentar o valor da despesa.

Tampouco a falsa economia de 70 bi com desestruturação das carreiras de Estado impulsionou o mercado. Redução de salário inicial de futuros servidores do Executivo não tem efeito prático, pois não há previsão de novas contratações por concurso nos próximos anos.

Ou seja, pouco importa se o inicial será 5.000, 10.000 ou 15.000, porque zero vezes qualquer coisa é igual a zero. Na ânsia de prover recursos para o governo “fazer política”, o Ministro do Planejamento dá uma pedalada ao dizer que reduz uma suposta despesa futura que não existirá no curto ou médio prazo.

Pior ainda, desorganiza toda a estrutura de RH das carreiras meritocráticas do Executivo, cuja construção vem ocorrendo paulatinamente há 30 anos e perpassando vários governos (a Lava Jato é um produto dessa construção), apenas para encobrir um problema momentâneo de caixa.

Essas medidas são um erro de cálculo político, pois além de não produzir ajuste efetivo de despesas, geram hostilidade das corporações de servidores públicos, que têm meios de criar dificuldades ao governo no Congresso. Corporações que agiam apenas na defesa de seus interesses mais diretos, agora sofrem pressões de suas bases para atuar mais incisivamente contra o governo.

Isso é preocupante diante da nova denúncia contra o Presidente. O país já conhece o custo de se abafar um pedido de impeachment, e não aguenta pagá-lo de novo. Se a Bovespa recém bateu seu recorde nominal, certamente foi pelo trabalho da equipe autenticamente econômica da Fazenda, que prioriza o crescimento sustentável ao invés da política. Quiçá a Bovespa já estaria chegando aos 100 mil pontos e o desemprego estaria caindo na mesma proporção, se o presidente não precisasse dar tantos ouvidos à velha política encrustada na área econômica.

ALEX CANUTO ” BLOG PODER 360″ ( BRASIL)

Alex Canuto é presidente da Anesp (Associação Nacional dos Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental), advogado e mestre pela Hertie School of Governance de Berlin.